Raquete

Fui ao velório do avô de um amigo. Pinheiros ta infestado de pernilongos. No velório, as tias levaram duas raquetes pra matar os insetos voadores. O problema é que elas revezavam no manejo com uma das raquetes elétrica enquanto uma tia deixou a segunda raquete sobre o corpo por causa dos pernilas e mosquitinhos das flores. Daí que uma pessoa entrou chorando, se debruçou sobre o caixão e levou um choque. Tive que sair da sala.

Post Destacado

LAMENTO

Ouçam, crianças:
Seu pai morreu.
De seus velhos paletós
Vou lhes fazer casaquinhos;
E vou lhes fazer calcinhas
Com as suas calças velhas.
Haverá nos seus bolsos
Coisas que punha ali;
Algumas chaves e moedas
Recobertas de tabaco;
As moedas são de Dan,
Para guardar no cofrinho;
Com Anne ficam as chaves,
Para um belo tilintar.
A vida tem que seguir,
E os mortos ser esquecidos;
A vida tem que seguir,
Ainda que morram bons homens;
Anne, venha tomar seu café;
Dan, tome o remédio você;
A vida tem que seguir;
Eu só não lembro porquê.

 

Edna St. Vincent Millay, (1892 -1950)
tradução: Paulo Vizioli

Agradecimento especial ao amigo Luiz Claudio, Finest pela beleza de poema compartilhado.

Post Destacado

Por que você me contou ?

Quando recebi a notícia da morte de minha mãe senti um alívio. É estranho esse sentimento, mas posso tentar explicar.

O primeiro motivo do alívio era porque não veria aquela mulher que tanto amo (tempo presente, amor intermitente, ininterrupto) parar de sofrer. Havia ali, por parte dela, um desejo para que aquilo acabasse e ela pudesse descansar o corpo físico tão cansado, mas uma alma cheia de graça, de acordo com a sua crença.

O segundo motivo diz respeito ao fato de que sempre fomos bastante verdadeiros um com o outro. As pessoas do nosso entorno sabiam  e viam como era a nossa relação “como vocês são unidos“, “que bonito ver vocês juntos “, “nossa quanto cuidado um com o outro“. Essa verdade rendeu evidentemente muitas crises, digamos. Quando eu dizia que ia fazer alguma coisa, a resposta era de que eu estava avisando por que ja tinha feito (rs).

Claro que existiam aquelas malcriações de filho para mãe, mas nada disso anulou o que de  melhor havia em nossa relação, especialmente  por parte de uma mãe que não poupou esforços para a minha formação de caráter

Um dia falei a respeito da minha sexualidade. Foi uma conversa rápida e tensa. Com algumas perguntas por parte dela que custavam a sair de uma voz embargada. O desfecho é quase sempre conhecido por todos: uns dias estranhos, ela tentando entender e eu aliviado.

Mas a pergunta dela que nunca me saiu da cabeça: Por que você me contou ?

Vejam, a conversa em que relatei tudo que tinha passado na infância e juventude aconteceu dois meses antes da sua morte. Foi naquele momento que pude responder:

sempre fomos tão amigos, nossa relação sempre foi tão verdadeira e sincera que a única coisa que posso fazer é não esconder absolutamente nada de você. Foi libertador. Ela me abraçou.

Os dias passaram, tudo retornou a normalidade, até a internação e a notícia da doença. 30 dias indo ao hospital, falando com médicos, tentando entender o que estava acontecendo e a notícia, em exatos 30 dias, do falecimento.

 

No velório, ao chegar, uma tristeza, mas muitas certezas: a do meu amor por ela, a de que eu tinha feito tudo que podia, de que tentei trazer um conforto maior naqueles últimos anos, mas, sobretudo, de que eu tinha dito a verdade e isso nos libertou. Por isso o alívio, ela ia sem que eu tivesse precisado esconder dela qualquer fato da minha vida.

Antes de morrer, minha mãe havia me dito: vou morrer, você está criado, bem criado e com caráter. Seja sempre feliz! 

 

mae formatura

 

Post Destacado

Ironia da liberdade

Ironia da liberdade

Disseram a José, quando este nasceu, que a vida lhe cobraria alguns centavos a gosto. José, nascido no terceiro dia do segundo mês, pensou que a cobrança seria feita em trabalho. A gosto de quê? A troco do puro gosto? José, assim que nascido, só não fora trabalhar porque um tal de Girino lhe dissera: vem cá, tem de esperar! Mas José, estando nascido lá no sertão dos Corais, não sabia que o valor seria tão alto quanto lhe queriam creditar.

Nasceu, cresceu, e perguntara: o que faço ainda eu por tanto trabalhar? Já pagara os alguns centavos a gosto que me disseram: “haverá a vida de cobrar”? José, já falecido, coitado, fora marido, pai e avô. Mas sempre devedor desses centavos que o mundo não cessara: cobrara-lhe por pura dor.

Victhor Fabiano, da coletânea Guerra da Minha Ruavicthor

Post Destacado

Carta para meu irmão

Carlinhos,

Me lembro sempre de como todos sempre te chamavam, mesmo que tenha crescido era sempre o Carlinhos para nós todos.

Um amigo querido tem um livro chamado “Cartas Extraordinárias” ( resenha )escritas por personagens notáveis da história do mundo. Li com atenção a carta de Dostoiévski ao seu irmão Mikhail em que relatava sua situação ante a uma pena execução e a sua reversão. É uma carta linda.

Nunca te escrevi uma carta, nem uma mensagem, quase não deu tempo de dizer ‘adeus’. Acordei essa madrugada pensando que poderia fazer isso e, sem conseguir conter meus pensamentos, lembrei de muitos dos nossos momentos. Do seu instrumento musical preferido, o Tantan, do grupo A toca do Coelho e do Zeca Pagodinho que surgia no mundo do samba, do quanto queria roupas lindas e de como gostava de se vestir bem. Lembro da sua maior paixão, aquela que arrebatou seu coração.

Nem tudo foi tão bem depois de um determinado momento das nossas vidas, as vidas nas periferias continuam sendo ceifadas pela violência das drogas. Sempre brigamos muito, mas lembro que nada foi mais importante do que nossa última conversa. Foi uma felicidade voltar ao trabalho depois daquele almoço depois de você passar a semana insistindo para que acontecesse, eu precisava te falar isso. Olhando para trás, foi o mesmo que ouvir você dizer: “está tudo bem, estou livre, sinto-me livre”. Era uma despedida ? Você se adiantou ? 18 anos foi pouco tempo para você.

Lamento minha imaturidade para lidar com as suas dificuldades. Eu que parecia tão crescido, fui pequeno por pura incompreensão do que acontecia em nossas vidas ou era a inexperiência da idade? Não soube identificar um pedido de socorro.

Os anos passaram e eu fui ficando. Mamãe, tenho comigo, precisava ir te ver. Ela precisava saber como você estava nesse novo lugar e esperou que as coisas se ajeitassem um pouco mais por aqui e resolveu partir. Sinto sua falta e não são raras as vezes em que acordo e te pergunto: você poderia estar aqui, né ?

carlinhos e eu

Não falarei sobre o nosso pai. Não tenho o que falar sobre ele.

As coisas estão mais modernas nos meios de comunicação, até onde minha memória alcança cartas começavam com a pergunta sobre como se encontra o destinatário e o desejo sincero de que todos estejam bem.  Queria escrever mais, não consigo dominado pelas lembranças.

Desejo que tudo esteja tranquilo por aí, com você e com os nossos.  Te amo!

“Cartas Extraordinárias” – A carta encontra-se publicada no Blog Russianshow

Post Destacado

Memorial das Vítimas do Coranvírus no Brasil

Apresentamos a todes uma singela iniciativa em defesa do direito à memória, à verdade, ao luto digno (incluindo a possibilidade de velar e homenagear, ainda que virtualmente, seus mortos) e a eventuais reparações. Estamos construindo, a várias mãos, um Memorial das Vítimas do Coronavírus no Brasil, para resgatar todas essas histórias de vida, as circunstâncias da morte sob esta pandemia e, sobretudo, garantir um espaço para respeitosas homenagens e feminagens, desde já, às vítimas fatais do Covid-19, a partir de seus familiares e amigos. Todas as histórias desse Memorial são ou informações já públicas, ou mensagens e homenagens enviadas para nós diretamente por familiares e amigos das vítimas.

Como já existem inúmeros casos sendo confirmados e, infelizmente, muitos outros virão nas próximas semanas, é preciso, desde já, seguir de perto essas ocorrências, apurar eventuais subnotificações (nos vários casos suspeitos), desaparecimentos ou notificações equivocadas mesmo, tentando salvaguardar os direitos e garantias fundamentais (da vida à morte) de cada ser humano, concidadão e concidadã brasileira, que venha a perder sua vida neste contexto de calamidade. A solidariedade às vítimas e seus familiares é, mais do que nunca, um dever ético de toda sociedade.

Conheça as primeiras 60 histórias, de vida, morte e sua memória viva, na página: www.facebook.com/memorialcoronabrasil (ver a lista completa dos nomes e locais das mortes ABAIXO)

Além disso, aos poucos, estamos formando, em parceria com diversos profissionais e organizações sérias e comprometidas, uma Rede de Apoio às Famílias de Vítimas Fatais de Covid-19 no Brasil. Para tanto, agradecemos desde já a todas pessoas, núcleos de pesquisa e demais entidades que têm nos apoiado nessa iniciativa (com destaque especial para vários núcleos da Unifesp, CAAF à frente). Em breve divulgaremos as demais ações específicas dessa Rede Emergencial, em relação à qual, devido à demanda crescente e ponderando nossos potenciais e limites, de braços e pernas e financeiros também, precisamos ter redobrada responsabilidade, sem deixar de dar toda contribuição voluntária e espontânea que as famílias estão precisando, com urgência, nesse momento de dor.

Mais informações sobre o Memorial das Vítimas (inclusive de novos óbitos), sugestões a nossa Rede em formação, entre outras contribuições, nos seguintes contatos: memorialcoronabrasil@gmail.com [E-mail]; ou 11-93011-3281 [Zap e Telegram].

Todo apoio é bem-vindo! Nossa gratidão desde já.

Fiquem bem, se possível em casa seguindo todas orientações preventivas: cuidem-se e sigamos nos cuidando até a curva pandêmica arrefecer. Vamos atravessar tudo isso em cooperação, mesmo seguindo ao máximo possível, nesse momento, o isolamento físico – o qual ao invés de nos isolarmos mais uns dos outros, pode quem sabe nos reaproximar também. Toda vida importa.

💖

🕊️ LISTA DAS PRIMEIRAS VÍTIMAS E HISTÓRIAS DE VIDA NO MEMORIAL PÚBLICO: 🕊️

– Adelita Ribeiro (38 anos, Técnica de Saúde, Goiânia-GO)
– Aislan Crozeta Corrêa (32 anos, Consultor de Vendas, São Ludgero-SC)
– Antonio Brito dos Santos (49 anos, Manobrista, São Paulo-SP)
– Antônio Edson Mesquita Mariano (67 anos, Aposentado, Rio de Janeiro-RJ)
– Antônio Nonato Lima Gomes (57 anos, Prefeito, São José do Divino-PI)
– Bboy Patrick (Dançarino e Hip-Hop – checando mais infos)
– Billy Joe (31 anos, Rapper, São Paulo-SP)
– Bruno Nascimento Leite (29 anos, Embu das Artes-SP)
– Cesar Augusto Visconti (43 anos, Piloto de Automobilismo, São Caetano do Sul-SP)
– Cleonice Gonçalves (63 anos, Diarista, Rio de Janeiro-RJ)
– Cleuza Fernandes da Silva (32 anos, Vendedora Ambulante, Rio Bonito-RJ)
– Daniel Azulay (Cartunista, Rio de Janeiro – apurando mais dados)
– Durvalino dos Santos (69 anos, Aposentado e Eletricista, Mogi das Cruzes-SP)
– Edgar dos Santos Pereira (66 anos, Bancário, Rio de Janeiro-RJ)
– Edson Ferreira Costa (Pastor, São Paulo-SP – checando mais infos)
– Edson Oenning (45 anos, Segurança Particular, São Paulo-SP)
– Eduardo Gomes da Silva (48 anos, Auxiliar de Enfermagem, São Paulo-SP)
– Érica (Ativista Cultural, São Paulo-SP – checando mais infos)
– Érika Ferreira (39 anos, Atriz, Niterói-RJ – oriunda de São Gonçalo-RJ)
– Gabriel Martinez (26 anos, Músico, Rio de Janeiro-RJ – caso suspeito)
– Gustavo Mercedes (36 anos, Farmacêutico, Ribeirão Preto-SP)
– I.G.R.S. (10 anos, Criança, Betim-MG – caso suspeito)
– Idalgo Moura dos Santos (45 anos, Enfermeiro, São Paulo-SP)
– José Alves Galdino da Silva (38 anos, Vigilante Terceirizado, São Paulo-SP)
– José Antônio da Boa Morte (Téc. de Enfermagem, São Paulo-SP – checando infos)
– José Joaquim Magalhães (92 anos, Aposentado, Sorocaba-SP)
– José Manuel de Melo Gomes (Médico Anestesiologista, Rio de Janeiro-RJ – checando mais infos)
– José Palitot Júnior (44 anos, Servidor Público, São Paulo-SP)
– Juraci Augusta da Silva (70 anos, Enfermeira, São Paulo-SP)
– Luciara Peçanha (58 anos, Professora, São Gonçalo-RJ)
– Luis Alberto Anchau (60 anos, Empresário, Novo Hamburg-RS)
– Luis Alves Sobrinho (48 anos, Enfermeiro e Socorrista, Mossoró-RN)
– Luiz Di Souza (61 anos, Professor Universitário da UERN, Mossoró-RN)
– Luiz Eduardo Ayres Santos (Técnico de Saúde, Santos-SP – checando mais infos)
– Magali Garcia (46 anos, Sargento da PM, Cotia-SP)
– Marcos Antônio Vieira dos Santos (35 anos, Gerente Bancário, São Mateus-ES)
– Maria Aparecida Paschoalin (70 anos, São Paulo-SP – checando mais infos)
– Maria Luíza Santana do Nascimento (70 anos, Rio de Janeiro-RJ – checando mais infos)
– Mário Borba (68 anos, Gestor Empresarial, Joinville-SC)
– Martinho Lutero Gallati de Oliveira (66 anos, Maestro de Coral, São Paulo-SP)
– Mateus Zerbone Carlos (34 anos, Publicitário, João Pessoa-PB)
– Maurício Kazuhiro Suzuki (26 anos, Advogado, São Paulo-SP)
– Mirna Bandeira de Mello (71 anos, Empresária, Rio de Janeiro-RJ)
– Nabil Kardous (65 anos, Advogado, São Paulo-SP)
– Naomi Munakata (61 anos, Maestrina, São Paulo-SP)
– Oderman Bittencourt (45 anos, Empresário Teresina-PI)
– Paulo Andrade de Moura (60 anos, Atendente, São Paulo-SP)
– Paulo Fernando Moreira Palazzo (Médico Clínico e Hematologista, São Paulo-SP)
– Quézia Leite (31 anos, Assistente Social, João Pessoa-PB)
– Rafaela da Silva Jesus (28 anos, Professora, Itapetinga-BA, morreu 7 dias após o parto, criança sobreviveu)
– Ricardo Antonio Piacenso (Médico Cardiologista, Rio de Janeiro-RJ – checando mais infos)
– Samanta Santos Faria (35 anos, Empresária, São Paulo-SP)
– Valdir de Azevedo (66 anos, Professor, São Paulo-SP)
– Viviane de Lucena (Fisioterapeuta, Recife-PE – grávida de 31 semanas, bebê sobreviveu porém está na UTI)
– Viviane Rocha Luiz (61 anos, Assessora Técnica de Saúde, Brasília-DF)
– Willian Furtuoso (integrante da Escola de Samba Vai-Vai, São Paulo-SP – checando mais infos)
– Wilson Cano (83 anos, Professor Universitário da Unicamp, Campinas-SP)
– **Adolescente [Nome ocultado] (15 anos, São Lourenço da Mata-PE)
– **Bebê [Nome ocultado] (3 meses e idade, Iguatu-CE)
– **Jovem Indígena [Nome ocultado] (20 anos, atividade desconhecida, Santo Antônio de Iça-AM)

O sapato e a morte

A morte é um tema sem fim ou sem fundo, sei lá.

É quase impossível que na leitura de um livro, um artigo ou qualquer outro gênero textual eu não me perca em devaneios a respeito dela. Li por ocasião da minha tese (Políticas de Morte para corpos sem lei) muitos autores que trataram dessa questão e, assim como eles, sempre concordei que esse é um tema eminentemente político, sem desconsiderar que também é do campo da psicologia, da filosofia, da economia e assim por diante. Ela se impõe na história dos povos, em todas as sociedades e em qualquer tempo.

Maurice Godelier diz que a morte não se opõe à vida, mas ao nascimento porque ela tem a função de disjuntar aquilo que estava unido e que por um outro instante, num momento de ruptura, dará forma a uma outra forma de vida.

Nelson Rodrigues dizia que é a morte o parâmetro para o amor:

Não há amor se falta o sentimento da morte. É preciso que, olhando o ser amado, cada qual pense: – “Um de nós morrerá primeiro”. Amaremos melhor se pensarmos na morte. Os que não se lembram da morte têm a alma mais árida do que três desertos.

Mas relendo um texto É isto um homem ?  para preparar uma aula foi a seguinte frase que me chamou a atenção “A morte começa pelos sapatos“. Primo Levi ao discorrer a respeito da vida nos campos de concentração revela que são os sapatos os verdeiros instrumentos de tortura, especialmente após horas e horas em marcha, quando revelam feridas que estão sujeitas as infecções que os levarão a morte. Os dicke Fusse – os pés inchados se tornam perigosos.:

 …se perseguido, não consegue fugir; seus pés incham e, quanto mais incham, mais insuportável torna-se o atrito com a madeira e a lona dos sapatos. Então, só resta o hospital, mas entrar no hospital com o diagnóstico  dos pés inchados é sumamente perigoso, ja que todos sabem (e especialmente a SS) que dessa doencça, aqui, não da pra se curar. 

Os sapatos também já foram objeto de um curta metragem Os sapatos de Aristeu que trata da morte de uma travesti que tem sua identidade de gênero negada pela família. O curta metragem revela a possibilidade de várias discussões e entre elas do direito ao nome, ao corpo e a identidade.

Primo Levi ao explicar o que é o campo diz que é o lugar onde tudo é proibido e desse ponto de partida precisamos pensar a respeito das proibições que nos cercam: a sexualidade compulsória, o direito ao lazer nas periferias, a impossibilidade de saneamento, a negativa de direitos básicos e mínimos.

O cuidado necessário é que a morte nos circunda por meio de proibições impostas tacitamente.

IKU, A MORTE

 

Iku está passando. Tenha calma, não faça movimentos bruscos, siga devagar. Respeito. A morte não aceita acinte. Num susto pode te esbarrar. Cuidado. A morte não erra o dia nem o endereço, mas anda abrupta e num simples toque, por mais leve que seja, te arranca o sopro. Um dia ela cruzará o caminho de todos, mas não se ponha em sua frente. Respeite Iku, respeite a morte.

 

Por: Rodney Willian Eugênio

Às duras penas, eu diria, não teve flores ! 

Ha coisas que me interessam saber dentro de um velório, sobretudo como aquele corpo morto chegou até ali. Em geral, alguns velórios são cheios de flores, choros e velas. Digo alguns, pois no caso de indigentes as condições de inumação são sempre bastante questionáveis, ainda que exista uma legislação que cuide desse fato.

Me parece também que flores, choros e velas compõem o fato de que aquela pessoa falecida formou uma trajetória que fará com que os presentes – amigos e familiares – sintam dolorosamente a perda. É quase um elogio fúnebre (lembremos das lápides em Atenas e os discursos pela honra e coragem dos heróis mortos em batalha),  o pesar por aquele que se foi e aqueles do entorno, por isso as homenagens em flores, choros e velas, mesmo que as sociedades modernas apressem cada vez mais o velório (quando há) e o enterro.

Lembro que quando meu irmão faleceu, vitimado por um incidente, fiquei sabendo após os trâmites burocráticos serem tomados, especialmente pela minha mãe que se adiantou junto a amigos na organização das exéquias, que tudo seria o mais simples possível. Meu pai, chegando de viagem quis comprar um terno, para o qual minha mãe fez clara objeção. Considerou que não teve aquela vestimenta em vida, não caberia na morte. A falta de esforços do meu pai durante toda a vida do meu irmão, revelou que seria um certo excesso a compra do terno. Mamãe também pediu que familiares não comprassem flores. Tudo muito simples, como a vida dele havia sido. Às duras penas, eu diria, não teve flores !

Ontem num velório uma amiga me disse: no meu velório doem o dinheiro das flores. Ou seja restará o choro, já que é muito querida, sem velas já que não é cristã.

Homenagens em velórios são sempre uma forma de reverenciar àquelx que se foi. Há muitas formas, no túmulo de uma amiga querida, deixaram latas de cerveja, a bebida preferida dela.  Nunca pensei ao certo do que gostaria, embora seja possível deixar atestada em vida os desejos pós morte (quem tiver interesse, leia o artigo 1881 do Código Civil Brasileiro), fico pensando que o que tiver pode ser uma representação do que fui.

 

 

 

 

 

Ela, Mazé, que ficou em mim!

Eu sempre fiquei pensando como seria minha vida depois que minha mãe se fosse. Da hora que recebi a ligação em que eu já imaginei o que tinha acontecido, até o momento do velório, muitos amigos e familiares, achavam que eu tinha me embebido de calmantes, chá de cidreira. Na verdade, aquela calma era justamente a minha preocupação em fazer tudo do jeito que ela queria, e agir exatamente como ela agiria. Então, busquei nela a tranquilidade, a mesma tranquilidade que ela tinha quando aconteciam essas situações, inclusive quando perdeu um filho.

a9565e0e-5237-4b4e-be89-d8298a91ef06

Busquei perceber e seguir com aquilo que ela tinha me ensinado, sem esconder sentimentos, sem deixar de chorar quando era preciso ou de dizer o quanto eu sentia a falta dela.

O que percebi é que fiquei com o melhor dela, o melhor dela permanecia em mim e aquilo foi maravilhoso, pois me ajudou a seguir, a voltar para as atividades, a ver a família e os amigos, a lembrar do quanto ela foi boa com todos e, naquele momento, eu teria que ser também.

Sinto falta todos os dias, mas todos os dias ela está em mim, com o ânimo e a disposição para ir à luta. Pela memória dela.

Poema

(…)
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”

China confisca caixões

Pode parecer uma piada ou apenas uma medida sem qualquer importância, mas ao confiscar caixões o governo declara a impossibilidade de tratar de questões relativas a vida e a morte da sua população.

Essas questões estão relacionadas aos aspectos materiais que reverberam na impossibilidade de tratar da questão populacional e que reverbera no tratamento que se dá corpo morto e sua consequente inumação ou ao atendimento das disposições de vontade da pessoa falecida e seus familiares.

Diz respeito também as questões de ordem religiosa que  ficam suspensas a medida que, ao macular o corpo, a crença de que o espírito não receberá o descanso adequado permanecerá no cerne daqueles fazem parte do entorno da pessoa falecida.

A falta de espaço para enterros e a negação do corpo morto foram temas recorrentes no nascimento do Estado, especialmente, no período da Revolução Francesa, quando ao afastar os mortos da cidade se pretendia também negar a morte como uma questão social. Ao afastar o corpo dos familiares e amigos, se tornava uma questão sanitária e ao esconder o corpo se tornou uma questão política.

A matéria completa está no link China consfisca caixões

 

A falta de espaço nos cemitérios

 

 

Muitas pessoas não entendem a dimensão de uma medida como esse proposta pelo governo chinês.

 

 

 

 

https://jovempan.uol.com.br/noticias/mundo/china-confisca-caixoes-para-proibir-enterros.html?utm_campaign=uol&utm_source=twitter&utm_content=geral&utm_medium=social-media

Blog no WordPress.com.

Acima ↑