SOBRE O MORRER E A MORTE (Por Carla Cristina Garcia)

SOBRE O MORRER E A MORTE

Eu gosto de visitar cemitérios. Isso pode parecer estranho. Ir visitar, passear, como se não houvesse nada melhor para fazer. Os nomes gravados nos mármores tornam presentes -, para além da dor, do vazio ou da incerteza – a lembrança de que somos seres mortais. Memento Mori, diziam os antigos para que não nos esquecêssemos de nossa condição mortal, para que não nos esquecêssemos de que vamos morrer. Deter-se na morte, não para nos resignarmos ante a brevidade da vida, mas para vivermos plenamente a Vita Brevis. E não se trata apenas do Carpe Diem, de aproveitar e desfrutar o momento presente; trata-se também de nos darmos conta de que somente os vivos são conscientes da morte. Para Hiedegger “ a morte, em um sentido amplo, é um fenômeno da vida” Há mortos que morreram muito antes de morrer e há vivos que nunca morrerão porque nunca estiveram vivos.

tumulo simone de beauvoir

Cemetary-Roermond_001

Fonte: http://www.magnusmundi.com/separados-pela-religiao-mas-de-maos-dadas-na-eternidade/

Em 1842, se casaram em Roermond na Holanda, o coronel JWC van Gorkum e JCPH van Aefferden. Ele protestante e ela uma nobre católica. O casamento causou uma grande revolta na cidade puritana, não apenas pela diferença de religião, mas pela diferença de classe social. Foi um amor forte que quis perdurar para além da morte. Em 1880, depois de trinta e oito anos de casados, o coronel morreu. Sua esposa viveu mais oito anos. A rigorosa lei da época impedia que ambos fossem sepultados no mesmo cemitério.

Seguindo um plano previamente traçado, e pela expressa negativa da esposa em ser enterrada na cripta familiar, eles foram enterrados um de cada lado do muro, o mais junto possível, elevando-se as tumbas por cima do velho muro e unidos simbolicamente por duas mãos esculpidas.

Para além das leituras políticas sobre a intolerância das religiões que não religam, ou de interpretações poéticas sobre um amor mais forte do que a morte, há um dado que é necessário destacar. Desde que seu marido morreu, e durante oito anos, ela viveu antecipando a própria morte, preparando-a, lutando contra a família e as instituições, dirigindo a construção do monumento funerário, questionando seu lugar no mundo, morrendo de vida, vivendo a morte.

Não temos a experiência da morte, quando ela chega, nós já não somos, nos lembra Epicuro; apenas a experimentamos de forma indireta nas mortes das pessoas que amamos.

O filósofo Julián Marias, ao se referir em suas memórias a morte da esposa diz que a partir deste acontecimento “ o mais grave, desolador e destruidor de minha vida” se deu conta de que amava as pessoas queridas com a metade de si mesmo. Não é possível, nem desejável sobrepor-se a morte de um ser querido, unicamente aprender a amar com a metade de si. Somos o que somos, não apesar dos nossos mortos, mas graças a eles. Sobrepor-se a eles seria como esquecermos de nós mesmos. Há feridas de dor infinita que nunca fecham, são parte da nossa identidade.

É esta justamente a diferença que alude Javier Gomá entre a morte como acidente biológico e a mortalidade, como fenômeno essencialmente humano: “ Muitas vezes se diz que a sociedade contemporânea esconde a morte. Eu acredito, ao contrário, que não existe um fenômeno mais presente na vida cotidiana – nos telejornais, filmes, videogames, livros – que a morte como acidente biológico. Mas o que sim se esconde é a mortalidade, a aceitação moral de nossa contingência e de suas limitações, que só experimenta a fundo que caminha da estética para a ética”

Só o ser humano é consciente da morte, ou melhor, ao contrário, somente a experiência da morte vai nos tornando humanos. A ocultação da mortalidade em nossa sociedade é generalizada, é um signo, não de medo da morte, mas da incapacidade para a vida. Os passarinhos dos nossos filhos nunca morrem, apenas escapam das jaulas. Enquanto isso, saturados e insensibilizados de tantas mortes televisionadas, esquecemos o verdadeiramente relevante, a aceitação da nossa contingencia e suas limitações.

Leituras sobre o morrer e a morte

Philippe Ariès Sobre a história da morte no ocidente desde a Idade Média. Tradução de Pedro Jordão. Lisboa: Teorema, 1989.

Javier Gomá, Razón: portería, Galaxia Gutenberg, Barcelona 2014.

Edgar Morin, El hombre y la muerte, Kairós, Barcelona 2003.

Iván López Casanova, “La enseñanza del fin y las ilusiones”, disponible en http://eldia.es

 

 

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