Uma mãe nunca deveria enterrar um filho, é contra a ordem natural das coisas

Por: Rita de Cassia Alves Oliveira

Essa afirmação, carregada de angústia e tristeza, faz parte dos cotidianos cortejos de sepultamento dos jovens mortos no Brasil. São muitas mães em luto por que também são muitos os jovens mortos. A Anistia Internacional do Brasil aponta que, em 2012, foram assassinadas 56.000 pessoas no país; destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos [1]; relatório elaborado pela ONU em 2016 indica que cerca de 23.000 jovens negros morrem, por ano, no Brasil, muitos dos quais vítimas de violência praticada pelo estado[2]. Esses dados apresentam um perfil bem definido dessas vítimas das ações violentas protagonizadas pelo estado: quem morre são os homens jovens, negros, pobres e moradores das periferias.

abuelas de mayo.png

Foto: Abuelas. Fonte: Abuelas de Plaza de Mayo (https://www.abuelas.org.ar/abuelas/historia-9 ). 24/março/1980.

            Por trás desses milhares de jovens assassinados há mães e famílias afetadas por essas tragédias. Há o sofrimento de uma vida jovem interrompida, dos sonhos despedaçados e, principalmente, de enterrar os filhos que foram mortos em circunstâncias pouco esclarecidas ou até mesmo distorcidas. Dos “Crimes de maio” de 2006 emergiu em São Paulo o Movimento Independente Mães de Maio, uma organização de combativas e inconformadas mães que perderam seus filhos na guerra ocorrida entre uma facção criminosa e a Polícia Militar e que fez aproximadamente 600 mortos em duas semanas, a maioria jovens moradores das periferias que não tinham nada a ver com o conflito. Inspiradas nas Madres de Plaza de Mayo da Argentina, as mães brasileiras seguem lutando por justiça e, principalmente, para que o estado reconheça que houve crimes. A partir daí surgiram inúmeros grupos de mães que perderam seus filhos nas mesmas condições: Mães em Luto da Zona Leste, Mães Mogianas, Mães de Manguinhos (RJ), entre outros, inclusive na Colômbia, México e Costa Rica. São muitas mães em luto e em luta.

            Quando ouvimos as histórias do sofrimento e da luta dessas mulheres somos conduzidos pela mesma trajetória dos sentimentos pelos quais elas passam: num primeiro momento vem o baque, a sensação de que o mundo caiu; depois a depressão e os meses na cama, sem trabalhar, sem ânimo de viver. Márcia, mãe do Renatinho, afirma: “mataram eu e meu filho no dia xx, do mês xx, do ano xxxx”; e Sol Oliveira, mãe do Victor Antônio Brabo (assassinado aos 20 anos), completa: “eles não matam só o filho, matam a família inteira”. São “mortas-vivas”, dizem elas. Trata-se de um longo luto, arrastado, imobilizador; um luto que traz a sensação de estarem mortas apesar de vivas. Os outros filhos tentam ajudar, mas a tragédia familiar também pesa para eles e ainda com o agravante do medo de sair de casa, sabem que podem ser as próximas vítimas e piorar ainda mais a situação das mães. Muitas mães sucumbem e são tomadas pelo câncer decorrente, dizem elas, da tristeza. Mas, aos poucos, muitas delas vão se erguendo e se aproximando de outro sentimento: a indignação. E daí vem a raiva, o ódio do estado inerte, dos assassinos impunes, dos promotores surdos. Aos poucos levantam-se das camas e juntam-se à outras mulheres e grupos que fazem do luto a força motriz das lutas. “Eu vim pra luta depois da dor”, afirma Sol. Tatiana Lima Silva, mãe do Peterson Silva de Oliveira (assassinado aos 18 anos), vai no mesmo sentido: “o que aconteceu com meu filho foi há apenas 8 meses e é isso o que me move e me sustenta, é essa luta”.

            “Do luto à luta” é o título do livro publicado pelas Mães de Maio em 2011 [3]. Há, portanto, uma extrema consciência e afirmação de que o luto é elaborado e se renova com a luta. É um luto-resistência, um luto que induz à ação potente. E elas perdem o medo de transformarem-se em novas vitimas dos grupos de extermínio, perdem a timidez diante de juízes e promotores, falam à imprensa e à universidade, emocionam e ampliam suas redes de apoio e proteção. Praticam afetos, formam redes e estendem as mãos à outras mães na mesma situação. Ganham visibilidade, estão em muitos lugares e eventos exibindo seu luto, sua luta e, por que não, também suas alegrias das pequenas conquistas.

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Foto: Sol Oliveira. Fonte: Facebook. 17/agosto/2017

            Essas mães enterram seus filhos e experimentam a subversão da ordem natural da morte, elas sentem que deveram ser enterradas por seus meninos, mas na verdade eles viram sementes do luto-luta dessas mulheres em busca de justiça, verdade e reparação.

 

[1] Anistia Internacional Brasil: <https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/>

[2] Cf.: ONUBR. Disponível em:

<https://documents-dds ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G16/021/38/PDF/G1602138.pdf?OpenElement>. Acesso em: 05 jun. 2016.  .        

[3] MÃES DE MAIO. Do luto à luta: Mães de Maio. São Paulo: Nós por Nós, 2011. Disponível em: http://media.folha.uol.com.br/cotidiano/2011/05/06/livro_maes_de_maio.pdf

 

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