Vazio de morte, uma dor que não termina

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Por Marcelo Hailer

Costumo dizer aos meus amigos que sou um ateu espiritualista, obviamente, todos riem da minha cara e dizem que tal coisa não existe. Concordo, mas, depois de alguns trabalhos com ayuasca confesso que o meu materialismo é sim um tanto espiritualista. Existem algumas conexões que estabelecemos em vida que a objetividade da vida cotidiana não explica. É sobre ela que quero falar, mas claro atrelada à dor de perder pessoas amadas cuja conexão jurávamos que seria para toda a vida. Pensando bem, é sim para o resto do tempo, porém, a mediação que antes era feita pela vida e pelos encontros, passa a ser feita pela morte e pela ausência.

Por duas vezes a morte levou pessoas que eu amava – amo – demais. A primeira foi a minha mãe, Sandra, quando eu tinha 18 anos. A segunda foi Ana, uma grande amiga, inesperável… Sabe aquela história de amor à primeira vista, então, comigo e com a Ana foi assim. Do primeiro encontro não nos separamos nunca mais. Felizmente só tenho excelentes memórias com estas duas mulheres que são responsáveis pela pessoa que me tornei.

Vou falar sobre o amor, mas também vou falar sobre a morte.

A minha mãe foi acometida pro uma doença, à época praticamente abandonei os estudos para acompanha-la no hospital. Lembro até hoje do momento em que a enfermeira entrou no quarto e me disse que seriam as últimas horas dela e que eu deveria avisar toda a família. Árdua tarefa, a cada telefonema uma despedida. Minha mãe era o tipo de pessoa que centralizava todos à sua volta, com a sua partida tudo se despedaçou, todos se desencontraram.

Lembro que, sempre que me perguntavam como eu estava eu respondia que era como se uma pilastra que dava sustentação a um prédio tivesse sido arrancada. Eu estava literalmente no chão. Não há tempo que cure este vazio.

Ana era a minha grande amiga e parceira. Fomos apresentados pela Luanda – outra grande amiga e parceira – foi uma conexão maluca e no dia seguinte ela já estava me ligando para eu ir à sua casa. Isso se daria pelos próximos 16 anos. Tornamos-nos um trio inseparável, estávamos sempre juntos, nos momentos maravilhosos e naqueles bem merda. Resolvíamos tudo com cerveja, cigarro e muitas risadas, às vezes algum choro.

O que eu não sabia é que aquela noite de fevereiro de 2016 seria a nossa última celebração. Conversamos até altas horas e ela me trouxe para casa, como de costume. A Ana estava cansada desse mundo baixo em que vivemos e resolveu voar… E com certeza o seu voo foi alto.

O dia a dia ordinário era pequeno demais para Ana.

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A nossa cultura não nos prepara para a morte, por conta disso nunca a colocamos em nosso horizonte. Não trabalhamos com a ideia de que nossos pais vão morrer, não lidamos com o fato de que os nossos grandes amigos podem partir antes de nós.

O dia seguinte da morte é algo indescritível, o tempo fica suspenso, não existe mais horizonte. Na primeira vez teve o fato de que fui viver em outra cidade, ajudou a lidar com a ausência de minha mãe, era o Rio de Janeiro e vários amigos novos.

Na segunda vez não. Não houve uma despedida formal. A ferida que já carregava pela morte de minha mãe, aumentou e se tornou um rombo sem proporções em meu espírito. E, se alguém lhe disser que a dor de morte vai passar, não acredite, não passa e talvez tenha que ser assim mesmo.

É preciso chorar a morte, é preciso refletir sobre ela.

Quando as pessoas que amamos morrem, nós também morremos. A vida se revela breve e finita. Os sonhos se tornam mais próximos. Mas, as novas amizades e amores tornar-se-ão distantes.

Por estarmos um tanto mortos não queremos compartilhar da morte e também não queremos recebe-la novamente. Mas ela vai voltar. A morte sempre volta para nos lembrar de que tudo acaba.

Com a morte eu deveria ter me tornado ainda mais materialista, mas se deu ao contrário, pois, tanto na morte de minha mãe quanto da minha amiga Ana vivenciei experiências que só a ligação espiritual pode explicar. Foram dois sonhos e vou falar sobre eles.

Eu já estava morando no Rio de Janeiro e lembro que, neste dia acordei estranho, sentido coisas que não sabia explicar, não fui ao colégio. Depois do almoço resolvi dormir. A imagem do sonho surge na minha mente como se tivesse sido ontem: eu entrei em um quarto repleto de camas, uma forte luz branca a tudo cobria, ao fim do corredor formado pelos leitos encontrei a minha mãe sentada em uma cadeira de palha. Estava com o seu aspecto jovem: cabelos longos, unhas pintadas de vermelho e batom também vermelho. Peguei a sua mão e não queria mais soltar, queria permanecer ali. Foi ela quem me empurrou e declarou que eu deveria ir embora. Eu acordei chorando, mas, ao mesmo tempo uma sensação de alívio se apossou de mim. Dali pra frente eu conseguia falar sobre ela. Eu a libertei e a deixei partir de vez.

Com a Ana foi mais intenso. Eu corria por entre pedras e areias de uma praia, e estava desesperado, pois precisava encontra-la, parecia que algo ia acontecer com ela. De repente, ela chamou por mim, eu escutava o forte barulho de um rio. Corria, corria e não a encontrava. Depois de um tempo e bem cansado a encontrei nos braços de uma mulher que a acariciava nos cabelos. Ana dormia no colo de sua mulher, porém, a entidade que a segurava a soltou na correnteza e a Ana despareceu entre as águas. Acordei igualmente desesperado. Velhas culpas e questões voltaram: não corri o suficiente para ajudar a minha amiga. Por mais que a nossa história mostre o contrário, esta é uma culpa que vou carregar para sempre. Eu poderia ter corrido mais. Mas, eu precisava libertar a Ana. Fui a um centro espirita e lhe ofereci uma oração.

Hoje, quando penso sobre estes dois sonhos enxergo forte semelhança. Sandra e Ana, duas pessoas que até hoje eu não aceito a partida, mas elas se foram… Por mais que a minha dor de morte seja perpétua, tive que libertá-las.

A morte é isso também: libertar quem morreu.

Não existe uma conclusão para este texto, ele é mais um compartilhamento de morte. Não existe conclusão para a morte, seja para quem vai, seja para quem fica.

Quando a morte se materializa, tudo se transforma.

A morte passa a ser o nosso cotidiano, pois, como é sempre bom lembrar, tudo acaba.

A morte está aí para nos lembrar de que tudo é finito.

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