Necrópsia da vida

Necrópsia da vida

Por Luciana Cerqueira

para a mulher  que ensinou-me

as coisas simples: Joelma

 

Nós somos enigmáticos porque somos poéticos diz a escritora. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Ela em sua primeira gravidez viu crescer imensamente seu corpo de mulher que baila, bailou e voou e borboleteou sua mocidade e depois da longa espera viu seu menino amado esperado bater as asas.

Os laços entre ela e o amado desfizeram-se no líquido amniótico. E descobriu-se prenhe da poesia, do artesanato, do belo, enfim veio uma menina que desde sempre mostrou seus olhos de paixão e mulher, observando menina, brincando de arte e literatura. De gato e desenho.

Mas, mas… Mas aquele homem estava tomado pela cegueira branca que o escritor tanto ensaiou e Julianne Moore conversou com as gentes na sala escura mostrando-nos que é preciso observar.

E eu retorno para as primeiras linhas dessas histórias tecidas e entretecidas, nossas primeiras indagações como quem olha o transcorrer do dia e a vida dentro dos transportes públicos e rememora os contos da vida: nós somos enigmáticos porque somos poéticos como nos disse a escritora anteriormente. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Somos formados de poesia biológica: nossa carne. Poeira de estrelas. Uma luz que vagueia nas águas do mar, na ressaca e no seu brilho ao sol. Somos a vida e o milagre. A pintura e a organização da mulher: somos.

Somos os nossos ossos em nossa pele e tomados de paixão.  Voltando a ela, tornou-se mãe e foi tomada de tanto amor, uma lucidez do viver e ao mesmo tempo a insanidade das compras rica-pobres nas lojas de R$ 1,00, nos bazares, nos sebos e em tudo que se podia economizar enquanto via que o mundo enlouquecia cada minuto mais e foi criando a filha e a menina crescendo em sonhos, no recato e na selvageria que é o crescer de uma mulher com luz e carisma.

Depois de tudo aprender nos finos tratos de mulher: manicure, pedicure, bordar, pintar em tecido, crochetar, tricotar, cozinhar, não, não a fina cozinha dos aromas todos que se pede uma beleza cozer com ervas e especiarias, mas aquela do pão de cada dia.

O pão de cada dia feito às madrugadas e comido em vários amanheceres com os irmãos e o pai – com quem aprendeu a dançar, acordar e dormir cedo e amar a terra – e com a filha seu maior carinho e diálogo.    Depois de tanta vida, tanto aprender, tanto fazer e desfazer malas, mobiliar casas, decorá-las e enfeitá-las, e lá foi ela encontrar a ceifadora de todas as horas e tempos dizendo: quero ser auxiliar de necrópsia.

Viu, observou, olhou tanta vida entre as entranhas de mulheres violentadas. Tantas dores ela pôde perceber que naqueles corpos ao realizar as necrópsias e, também, nos marejados olhos dos familiares desses mortas mulheres. Ela encarou de frente tantos corpos nus e despidos da vida que submergiu a vida e emergiu voltando a amar a viver, decorar a nova casa, pintar as unhas e tecer novamente outras histórias e histórias…

Mas essa, essa é ela…

 

2 comentários em “Necrópsia da vida

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