Éramos oito

Por Daniel Pereira 

A morte é corriqueira na periferia das grandes metrópoles. O Estado negligente, propicia que famílias sejam destroçadas das formas mais violentas possíveis.

Sueli, mulher negra, criada pela vida, como muitas outras jovens do seu tempo foi mãe muito cedo. Aos 17 anos dera à luz a Roberto, seu primogênito. Depois, vieram os demais filhos, Bronze, Claudia, Daniel, Anderson, Wellington e a temporã, Natalia. Cresciam na favela vigiados pelos vizinhos enquanto a mãe saía em busca do sustento.

Ninguém jamais podia imaginar o que estava reservado àquela família. Tendo início no ano de 1990, o Bronze foi assassinado por ter sido confundido pelos traficantes de outra favela onde foi se refugiar. Em 1.993, Roberto foi morto à balas por ciúme do ex-marido da mulher com quem estava se envolvendo. Mesmo acostumada à luta e ao sofrimento impostos pela vida, Sueli vira seu coração dilacerado pela violência. Nenhuma mãe deveria enterrar seus filhos!

O ano era 1997. Após Sueli discutir com um rapaz que estava brigando com seu sobrinho por conta de crack, sob o efeito das drogas ele voltou até seu apartamento, pediu para lhe dar um abraço e covardemente a agarrou pelo pescoço, desferindo um certeiro tiro no meio da testa. Causa mortis: choque séptico; agente perfuro contundente.

Ela se foi e deixou órfãos cinco filhos, sendo apenas uma maior de idade; os demais variavam entre 17 e 2 anos de idade, além de sobrinhos que criava e seu neto. Daniel lidava com a perda da mãe se trancando no quarto onde ela dormia e, não era raro, retomar à consciência chorando sobre o túmulo da progenitora. Os demais não conseguiram se livrar das garras do vício e se entregaram às drogas. Quem poderia julgá-los?

Os que ficaram, não sabiam que Iku (a personificação da morte para o povo ioruba) ainda não havia se resolvido com eles. Em 2001, Wellington, o irmão caçula, pegou uma carona maldita com amigos e o carro em que estava foi alvejado por motoqueiros encapuzados. Dos cinco ocupantes do veículo, só ele foi atingido e morreu. Pobre infeliz. No ano de 2001,após separar uma briga do primo no baile em que estava, Anderson, ao sair do salão acompanhado por uma garota, foi seguido pelos seus assassinos. Ao virar a esquina, chamaram seu nome e ao se virar, fora atingido por tiros que tiraram a vida do casal. Detalhe: dos homens, nenhum chegou aos 30 anos de idade.

Restaram duas mulheres, sendo que Claudia já havia perdido a dignidade por conta do uso de drogas, Natalia e Daniel. Em 2010, cansado de enterrar seus familiares mortos de forma violenta, um alívio: ao retornar para casa após mais uma noite fazendo uso de drogas e álcool, Claudia foi encontrada morta sobre a cama que dormia. Infarto fulminante.

Como será que fica o emocional de alguém que fora exposto à esta sorte de violência? Perder a família toda de maneira trágica é ou não uma brincadeira da morte? Por fim, dos sete filhos de Sueli, apenas dois se livraram das artimanhas da morte? Até que não consigam mais enganá-la, vida se que segue…

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