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Por volta de 1h30′ da madrugada ouviu-se um grande barulho. Era no chamado Edifício Wilton Paes de Almeida o estrondo que supostamente vinha do 5º andar, no centro de São Paulo e tirava seus moradores das suas camas. A tragédia ocorrida no dia 1º de maio tomou conta do noticiário e das redes sociais.

Daqueles que ficaram expostos durante todo o dia no Largo do Paissandu pela oportunidade de terem conseguido sair ilesos das ruínas (se é que alguém saiu ileso), até aqueles que nas seguranças dos seus lares se marcavam como seguros o que se confirma é um total despreparo das autoridades públicas para a solução da moradia no país.

Foram relatos e entrevistas durante todo o dia de urbanistas, juristas, políticos e alguns moradores. A repórter até pediu foco na criança que bebia água, como se esse fosse um fato novo – os ocupantes bebem água, atentem !!!!

Mas e os mortos ?

Outras notícias dão conta de que há até o momento 44 desaparecidos com base na lista apresentada pela assistência social da Prefeitura de São Paulo, podemos ver a notícia em Bombeiros buscam desaparecidos . Não se sabe ao certo se estavam no local do evento ou se estavam fora de suas casas, afinal era feriado.

Me estranha, no entanto, o fato de que nenhuma lista tenha sido divulgada com maior amplitude e com nomes dos moradores. Se há um registro, há nomes.  Não há destaque para essa informação. Sabemos sobre as condições do prédio, sobre a força tarefa, sobre a desigualdade que assola o país, sobre as condições indignas de segurança no local, mas não sabemos dos desaparecidos ou mortos são travestis que moravam no local, se são  refugiados ou migrantes. Não há  nomes, não há rostos !

Na morte há desigualdade quando não se permite que nossos mortes tenham nomes e tenham rostos. Não sem razão, Butler, em Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto?,  nos explica da impossibilidade do luto para o corpo morto, quando não há vida vivida naquele que se foi “Sem a condição de ser enlutada, não há vida, ou, melhor dizendo, há algo que está vivo, mas que é diferente de uma vida”.

A invisibilidade perpetuada nas normas existentes que já não permitiram que essas vidas fossem reconhecidas, em suas condições mínimas, afinal, se as pessoas não morreram na tragédia, a tragédia das condições já as matou. Por que então teríamos um nomes nessa lista ?

 

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