Por que você me contou ?

Quando recebi a notícia da morte de minha mãe senti um alívio. É estranho esse sentimento, mas posso tentar explicar.

O primeiro motivo do alívio era porque não veria aquela mulher que tanto amo (tempo presente, amor intermitente, ininterrupto) parar de sofrer. Havia ali, por parte dela, um desejo para que aquilo acabasse e ela pudesse descansar o corpo físico tão cansado, mas uma alma cheia de graça, de acordo com a sua crença.

O segundo motivo diz respeito ao fato de que sempre fomos bastante verdadeiros um com o outro. As pessoas do nosso entorno sabiam  e viam como era a nossa relação “como vocês são unidos“, “que bonito ver vocês juntos “, “nossa quanto cuidado um com o outro“. Essa verdade rendeu evidentemente muitas crises, digamos. Quando eu dizia que ia fazer alguma coisa, a resposta era de que eu estava avisando por que ja tinha feito (rs).

Claro que existiam aquelas malcriações de filho para mãe, mas nada disso anulou o que de  melhor havia em nossa relação, especialmente  por parte de uma mãe que não poupou esforços para a minha formação de caráter

Um dia falei a respeito da minha sexualidade. Foi uma conversa rápida e tensa. Com algumas perguntas por parte dela que custavam a sair de uma voz embargada. O desfecho é quase sempre conhecido por todos: uns dias estranhos, ela tentando entender e eu aliviado.

Mas a pergunta dela que nunca me saiu da cabeça: Por que você me contou ?

Vejam, a conversa em que relatei tudo que tinha passado na infância e juventude aconteceu dois meses antes da sua morte. Foi naquele momento que pude responder:

sempre fomos tão amigos, nossa relação sempre foi tão verdadeira e sincera que a única coisa que posso fazer é não esconder absolutamente nada de você. Foi libertador. Ela me abraçou.

Os dias passaram, tudo retornou a normalidade, até a internação e a notícia da doença. 30 dias indo ao hospital, falando com médicos, tentando entender o que estava acontecendo e a notícia, em exatos 30 dias, do falecimento.

 

No velório, ao chegar, uma tristeza, mas muitas certezas: a do meu amor por ela, a de que eu tinha feito tudo que podia, de que tentei trazer um conforto maior naqueles últimos anos, mas, sobretudo, de que eu tinha dito a verdade e isso nos libertou. Por isso o alívio, ela ia sem que eu tivesse precisado esconder dela qualquer fato da minha vida.

Antes de morrer, minha mãe havia me dito: vou morrer, você está criado, bem criado e com caráter. Seja sempre feliz! 

 

mae formatura

 

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