LAMENTO

Ouçam, crianças:
Seu pai morreu.
De seus velhos paletós
Vou lhes fazer casaquinhos;
E vou lhes fazer calcinhas
Com as suas calças velhas.
Haverá nos seus bolsos
Coisas que punha ali;
Algumas chaves e moedas
Recobertas de tabaco;
As moedas são de Dan,
Para guardar no cofrinho;
Com Anne ficam as chaves,
Para um belo tilintar.
A vida tem que seguir,
E os mortos ser esquecidos;
A vida tem que seguir,
Ainda que morram bons homens;
Anne, venha tomar seu café;
Dan, tome o remédio você;
A vida tem que seguir;
Eu só não lembro porquê.

 

Edna St. Vincent Millay, (1892 -1950)
tradução: Paulo Vizioli

Agradecimento especial ao amigo Luiz Claudio, Finest pela beleza de poema compartilhado.

O sapato e a morte

A morte é um tema sem fim ou sem fundo, sei lá.

É quase impossível que na leitura de um livro, um artigo ou qualquer outro gênero textual eu não me perca em devaneios a respeito dela. Li por ocasião da minha tese (Políticas de Morte para corpos sem lei) muitos autores que trataram dessa questão e, assim como eles, sempre concordei que esse é um tema eminentemente político, sem desconsiderar que também é do campo da psicologia, da filosofia, da economia e assim por diante. Ela se impõe na história dos povos, em todas as sociedades e em qualquer tempo.

Maurice Godelier diz que a morte não se opõe à vida, mas ao nascimento porque ela tem a função de disjuntar aquilo que estava unido e que por um outro instante, num momento de ruptura, dará forma a uma outra forma de vida.

Nelson Rodrigues dizia que é a morte o parâmetro para o amor:

Não há amor se falta o sentimento da morte. É preciso que, olhando o ser amado, cada qual pense: – “Um de nós morrerá primeiro”. Amaremos melhor se pensarmos na morte. Os que não se lembram da morte têm a alma mais árida do que três desertos.

Mas relendo um texto É isto um homem ?  para preparar uma aula foi a seguinte frase que me chamou a atenção “A morte começa pelos sapatos“. Primo Levi ao discorrer a respeito da vida nos campos de concentração revela que são os sapatos os verdeiros instrumentos de tortura, especialmente após horas e horas em marcha, quando revelam feridas que estão sujeitas as infecções que os levarão a morte. Os dicke Fusse – os pés inchados se tornam perigosos.:

 …se perseguido, não consegue fugir; seus pés incham e, quanto mais incham, mais insuportável torna-se o atrito com a madeira e a lona dos sapatos. Então, só resta o hospital, mas entrar no hospital com o diagnóstico  dos pés inchados é sumamente perigoso, ja que todos sabem (e especialmente a SS) que dessa doencça, aqui, não da pra se curar. 

Os sapatos também já foram objeto de um curta metragem Os sapatos de Aristeu que trata da morte de uma travesti que tem sua identidade de gênero negada pela família. O curta metragem revela a possibilidade de várias discussões e entre elas do direito ao nome, ao corpo e a identidade.

Primo Levi ao explicar o que é o campo diz que é o lugar onde tudo é proibido e desse ponto de partida precisamos pensar a respeito das proibições que nos cercam: a sexualidade compulsória, o direito ao lazer nas periferias, a impossibilidade de saneamento, a negativa de direitos básicos e mínimos.

O cuidado necessário é que a morte nos circunda por meio de proibições impostas tacitamente.

 

 

IKU, A MORTE

 

Iku está passando. Tenha calma, não faça movimentos bruscos, siga devagar. Respeito. A morte não aceita acinte. Num susto pode te esbarrar. Cuidado. A morte não erra o dia nem o endereço, mas anda abrupta e num simples toque, por mais leve que seja, te arranca o sopro. Um dia ela cruzará o caminho de todos, mas não se ponha em sua frente. Respeite Iku, respeite a morte.

 

Por: Rodney Willian Eugênio

Às duras penas, eu diria, não teve flores ! 

Ha coisas que me interessam saber dentro de um velório, sobretudo como aquele corpo morto chegou até ali. Em geral, alguns velórios são cheios de flores, choros e velas. Digo alguns, pois no caso de indigentes as condições de inumação são sempre bastante questionáveis, ainda que exista uma legislação que cuide desse fato.

Me parece também que flores, choros e velas compõem o fato de que aquela pessoa falecida formou uma trajetória que fará com que os presentes – amigos e familiares – sintam dolorosamente a perda. É quase um elogio fúnebre (lembremos das lápides em Atenas e os discursos pela honra e coragem dos heróis mortos em batalha),  o pesar por aquele que se foi e aqueles do entorno, por isso as homenagens em flores, choros e velas, mesmo que as sociedades modernas apressem cada vez mais o velório (quando há) e o enterro.

Lembro que quando meu irmão faleceu, vitimado por um incidente, fiquei sabendo após os trâmites burocráticos serem tomados, especialmente pela minha mãe que se adiantou junto a amigos na organização das exéquias, que tudo seria o mais simples possível. Meu pai, chegando de viagem quis comprar um terno, para o qual minha mãe fez clara objeção. Considerou que não teve aquela vestimenta em vida, não caberia na morte. A falta de esforços do meu pai durante toda a vida do meu irmão, revelou que seria um certo excesso a compra do terno. Mamãe também pediu que familiares não comprassem flores. Tudo muito simples, como a vida dele havia sido. Às duras penas, eu diria, não teve flores !

Ontem num velório uma amiga me disse: no meu velório doem o dinheiro das flores. Ou seja restará o choro, já que é muito querida, sem velas já que não é cristã.

Homenagens em velórios são sempre uma forma de reverenciar àquelx que se foi. Há muitas formas, no túmulo de uma amiga querida, deixaram latas de cerveja, a bebida preferida dela.  Nunca pensei ao certo do que gostaria, embora seja possível deixar atestada em vida os desejos pós morte (quem tiver interesse, leia o artigo 1881 do Código Civil Brasileiro), fico pensando que o que tiver pode ser uma representação do que fui.

 

 

 

 

 

Ela, Mazé, que ficou em mim!

Eu sempre fiquei pensando como seria minha vida depois que minha mãe se fosse. Da hora que recebi a ligação em que eu já imaginei o que tinha acontecido, até o momento do velório, muitos amigos e familiares, achavam que eu tinha me embebido de calmantes, chá de cidreira. Na verdade, aquela calma era justamente a minha preocupação em fazer tudo do jeito que ela queria, e agir exatamente como ela agiria. Então, busquei nela a tranquilidade, a mesma tranquilidade que ela tinha quando aconteciam essas situações, inclusive quando perdeu um filho.

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Busquei perceber e seguir com aquilo que ela tinha me ensinado, sem esconder sentimentos, sem deixar de chorar quando era preciso ou de dizer o quanto eu sentia a falta dela.

O que percebi é que fiquei com o melhor dela, o melhor dela permanecia em mim e aquilo foi maravilhoso, pois me ajudou a seguir, a voltar para as atividades, a ver a família e os amigos, a lembrar do quanto ela foi boa com todos e, naquele momento, eu teria que ser também.

Sinto falta todos os dias, mas todos os dias ela está em mim, com o ânimo e a disposição para ir à luta. Pela memória dela.

Por que você me contou ?

Quando recebi a notícia da morte de minha mãe senti um alívio. É estranho esse sentimento, mas posso tentar explicar.

O primeiro motivo do alívio era porque não veria aquela mulher que tanto amo (tempo presente, amor intermitente, ininterrupto) parar de sofrer. Havia ali, por parte dela, um desejo para que aquilo acabasse e ela pudesse descansar o corpo físico tão cansado, mas uma alma cheia de graça, de acordo com a sua crença.

O segundo motivo diz respeito ao fato de que sempre fomos bastante verdadeiros um com o outro. As pessoas do nosso entorno sabiam  e viam como era a nossa relação “como vocês são unidos“, “que bonito ver vocês juntos “, “nossa quanto cuidado um com o outro“. Essa verdade rendeu evidentemente muitas crises, digamos. Quando eu dizia que ia fazer alguma coisa, a resposta era de que eu estava avisando por que ja tinha feito (rs).

Claro que existiam aquelas malcriações de filho para mãe, mas nada disso anulou o que de  melhor havia em nossa relação, especialmente  por parte de uma mãe que não poupou esforços para a minha formação de caráter

Um dia falei a respeito da minha sexualidade. Foi uma conversa rápida e tensa. Com algumas perguntas por parte dela que custavam a sair de uma voz embargada. O desfecho é quase sempre conhecido por todos: uns dias estranhos, ela tentando entender e eu aliviado.

Mas a pergunta dela que nunca me saiu da cabeça: Por que você me contou ?

Vejam, a conversa em que relatei tudo que tinha passado na infância e juventude aconteceu dois meses antes da sua morte. Foi naquele momento que pude responder:

sempre fomos tão amigos, nossa relação sempre foi tão verdadeira e sincera que a única coisa que posso fazer é não esconder absolutamente nada de você. Foi libertador. Ela me abraçou.

Os dias passaram, tudo retornou a normalidade, até a internação e a notícia da doença. 30 dias indo ao hospital, falando com médicos, tentando entender o que estava acontecendo e a notícia, em exatos 30 dias, do falecimento.

 

No velório, ao chegar, uma tristeza, mas muitas certezas: a do meu amor por ela, a de que eu tinha feito tudo que podia, de que tentei trazer um conforto maior naqueles últimos anos, mas, sobretudo, de que eu tinha dito a verdade e isso nos libertou. Por isso o alívio, ela ia sem que eu tivesse precisado esconder dela qualquer fato da minha vida.

Antes de morrer, minha mãe havia me dito: vou morrer, você está criado, bem criado e com caráter. Seja sempre feliz! 

 

mae formatura

 

Poema

(…)
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”

China confisca caixões

Pode parecer uma piada ou apenas uma medida sem qualquer importância, mas ao confiscar caixões o governo declara a impossibilidade de tratar de questões relativas a vida e a morte da sua população.

Essas questões estão relacionadas aos aspectos materiais que reverberam na impossibilidade de tratar da questão populacional e que reverbera no tratamento que se dá corpo morto e sua consequente inumação ou ao atendimento das disposições de vontade da pessoa falecida e seus familiares.

Diz respeito também as questões de ordem religiosa que  ficam suspensas a medida que, ao macular o corpo, a crença de que o espírito não receberá o descanso adequado permanecerá no cerne daqueles fazem parte do entorno da pessoa falecida.

A falta de espaço para enterros e a negação do corpo morto foram temas recorrentes no nascimento do Estado, especialmente, no período da Revolução Francesa, quando ao afastar os mortos da cidade se pretendia também negar a morte como uma questão social. Ao afastar o corpo dos familiares e amigos, se tornava uma questão sanitária e ao esconder o corpo se tornou uma questão política.

A matéria completa está no link China consfisca caixões

 

A falta de espaço nos cemitérios

 

 

Muitas pessoas não entendem a dimensão de uma medida como esse proposta pelo governo chinês.

 

 

 

 

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Ironia da liberdade

Ironia da liberdade

Disseram a José, quando este nasceu, que a vida lhe cobraria alguns centavos a gosto. José, nascido no terceiro dia do segundo mês, pensou que a cobrança seria feita em trabalho. A gosto de quê? A troco do puro gosto? José, assim que nascido, só não fora trabalhar porque um tal de Girino lhe dissera: vem cá, tem de esperar! Mas José, estando nascido lá no sertão dos Corais, não sabia que o valor seria tão alto quanto lhe queriam creditar.

Nasceu, cresceu, e perguntara: o que faço ainda eu por tanto trabalhar? Já pagara os alguns centavos a gosto que me disseram: “haverá a vida de cobrar”? José, já falecido, coitado, fora marido, pai e avô. Mas sempre devedor desses centavos que o mundo não cessara: cobrara-lhe por pura dor.

Victhor Fabiano, da coletânea Guerra da Minha Ruavicthor

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