Seminário: Necropolítica – Políticas de Morte

Organizei junto com outras pessoas queridas um Seminário no Centro de Pesquisa e Formação do SESC sobre um tema hoje, mais do que nunca, latente em nossa sociedade.

O Seminário tem por objetivo propor a discussão em torno do que chamamos de políticas da morte que ocorrem sob a tutela do estado. Se por um lado nos cabe discutir essas questões sob a ótica do conceito e da perpetuação de uma prática macro que ocorre no cotidiano das nossas cidades, por outro cabe destacar quais são os sujeitos que têm sido sistematicamente atingidos por essa política – lgbts, mulheres, população negra e indígenas.

Organizações não-governamentais, movimentos sociais, coletivos, associações e outros organismos tem sido enfáticos às denúncias a respeito das constantes violações investidas contra esses sujeitos.  Invisibilizados, subalternizados, estigmatizados, esses grupos são destacados de maneira semelhante ao quadro apresentado pela pensadora estadunidense Judith Butler como vidas precárias.

O intelectual camaronês Achille Mbembe, a partir da proposta teórica de M. Foucault em que destaca o exercício do poder estatal sobre corpos e vidas, têm afirmado, ao se afastar das formas tradicionais de definição do termo, que a questão da Soberania do estado é ampla e largamente utilizada não só para apresentar e retratar o poder estatal em relação as questões limítrofes sócio-espaciais, mas também para falar da disposição do estado em se utilizar desse poder para decidir sobre “quem deve viver e quem deve morrer”.

Assim, utiliza-se do conceito de Necropolítica para retratar a atuação do estado e, por consequência, quais dentre os seus sujeitos e grupos irão viver e morrer.

A programação e as informações estão em: Seminário Necropolítica

 

A vida que há na morte

 

É possível tornar a morte mais doce do que o medo ? É com essa pergunta que convido você a ler a matéria por meio do link abaixo.

Por que somos ensinados a temer a morte e não a encará-la de frente. Conheço casos de pessoas que em algum momento da vida começaram a se preparar para a sua passagem. Encaravam de maneira a coroar a sua trajetória tranquilamente e bastante serena. Há muitos relatos e, em alguns deles, a justificativa era a crença religiosa ou mesmo a fé numa passagem tranquila.

Seja pela religião, pela fé ou algum tipo de crença vale a pena pensar a respeito.

Matéria publicada em abril de 2017 mas que continua com a atualidade preservada.

Vale a pena conferir no link A vida que há na morte

 

E se Tânatos, irmão do sono, nos visitasse amanhã? 

O filósofo alemão Heidegger dizia que a morte é o que nos transforma em humanos. Se aceitamos isso, segundo o filósofo nossa existência se torna autêntica, pois aceitamos os fatos como são sem criar subterfúgios.

Começamos a morrer desde o momento em que nascemos, é nessa perspectiva que vamos nos criando com o intuito de completar todas as nossas fases da vida – da infância à juventude, da juventude à vida adulta, da vida adulta à velhice. Não se trata de previsão sobre o futuro, a morte é certa.

A morte nos deixa desconfortáveis e agimos muitas vezes como se ela não existisse. Os outros morrem, eu não ! é quase uma sentença que criamos para entender a nossa vida como um processo infinito, mas reconhecendo que o outro irá partir.
Todos sabemos que estamos destinados a morrer, mas muitas vezes agimos em razão da inexistência de uma temporalidade, como se tivéssemos tanto tempo ad eternum que não fosse preciso pensar sobre esse tema.
O medo da morte nos faz criar mitos. São eles que nos ajudam a vencer o medo, a entender nossas fraquezas, a construir histórias que muitas vezes irão criar pontes para entendermos e continuarmos a nossa trajetória. São os mitos que justamente nos fazem muitas vezes driblar o tema da morte e nos permite estabelecer planos para a nossa vida.  É o futuro que nos interessa, mesmo que não se tenha a certeza de que esses planos irão se concretizar ou não.

Não vamos esquecer que tudo isso é uma forma de negar o fato de que a finitude da vida chega. Negamos a morte e nos recusamos a falar dela como fator social. O que nos incomoda ? A morte ou o agir como se ela não existisse?  Falamos da morte por eufemismos “fulano está partindo”ou “estou indo embora” quando deveríamos admitir que “fulano está morrendo” ou “eu estou morrendo” e celebrar a morte como em tantas culturas. Os Vikings não temiam a morte pois era uma honra morrer em batalha, provar a honra e a bravura, e ser recebido no salão de Valhalla.

A verdade é que da forma como pensamos a vida tendemos a pensar que sempre se é muito jovem para morrer. Sempre se é muito cedo para morrer, mas deveríamos pensar:
E se Tânatos, irmão do sono, nos visitasse amanhã?

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro,

…ano passado eu morri, mas este ano não morro…

Belchior

Éramos oito

Por Daniel Pereira 

A morte é corriqueira na periferia das grandes metrópoles. O Estado negligente, propicia que famílias sejam destroçadas das formas mais violentas possíveis.

Sueli, mulher negra, criada pela vida, como muitas outras jovens do seu tempo foi mãe muito cedo. Aos 17 anos dera à luz a Roberto, seu primogênito. Depois, vieram os demais filhos, Bronze, Claudia, Daniel, Anderson, Wellington e a temporã, Natalia. Cresciam na favela vigiados pelos vizinhos enquanto a mãe saía em busca do sustento.

Ninguém jamais podia imaginar o que estava reservado àquela família. Tendo início no ano de 1990, o Bronze foi assassinado por ter sido confundido pelos traficantes de outra favela onde foi se refugiar. Em 1.993, Roberto foi morto à balas por ciúme do ex-marido da mulher com quem estava se envolvendo. Mesmo acostumada à luta e ao sofrimento impostos pela vida, Sueli vira seu coração dilacerado pela violência. Nenhuma mãe deveria enterrar seus filhos!

O ano era 1997. Após Sueli discutir com um rapaz que estava brigando com seu sobrinho por conta de crack, sob o efeito das drogas ele voltou até seu apartamento, pediu para lhe dar um abraço e covardemente a agarrou pelo pescoço, desferindo um certeiro tiro no meio da testa. Causa mortis: choque séptico; agente perfuro contundente.

Ela se foi e deixou órfãos cinco filhos, sendo apenas uma maior de idade; os demais variavam entre 17 e 2 anos de idade, além de sobrinhos que criava e seu neto. Daniel lidava com a perda da mãe se trancando no quarto onde ela dormia e, não era raro, retomar à consciência chorando sobre o túmulo da progenitora. Os demais não conseguiram se livrar das garras do vício e se entregaram às drogas. Quem poderia julgá-los?

Os que ficaram, não sabiam que Iku (a personificação da morte para o povo ioruba) ainda não havia se resolvido com eles. Em 2001, Wellington, o irmão caçula, pegou uma carona maldita com amigos e o carro em que estava foi alvejado por motoqueiros encapuzados. Dos cinco ocupantes do veículo, só ele foi atingido e morreu. Pobre infeliz. No ano de 2001,após separar uma briga do primo no baile em que estava, Anderson, ao sair do salão acompanhado por uma garota, foi seguido pelos seus assassinos. Ao virar a esquina, chamaram seu nome e ao se virar, fora atingido por tiros que tiraram a vida do casal. Detalhe: dos homens, nenhum chegou aos 30 anos de idade.

Restaram duas mulheres, sendo que Claudia já havia perdido a dignidade por conta do uso de drogas, Natalia e Daniel. Em 2010, cansado de enterrar seus familiares mortos de forma violenta, um alívio: ao retornar para casa após mais uma noite fazendo uso de drogas e álcool, Claudia foi encontrada morta sobre a cama que dormia. Infarto fulminante.

Como será que fica o emocional de alguém que fora exposto à esta sorte de violência? Perder a família toda de maneira trágica é ou não uma brincadeira da morte? Por fim, dos sete filhos de Sueli, apenas dois se livraram das artimanhas da morte? Até que não consigam mais enganá-la, vida se que segue…

Os Elefantes

Saí em férias com peso na consciência. Na correria, acabei não escrevendo um texto para este blog.

De qualquer forma pensei que pelo local não seria possível em razão do pouco acesso a rede de internet.

Estou no Kenya, na Reserva de Averdaro, no mesmo hotel onde Elizabeth II entrou princesa e saiu rainha. Um hotel bastante atípico em relação aos que costumo me hospedar quando viajo.

Com a diferença de 6 horas em relação ao Brasil, a noite caiu e estava tranquilamente lendo um dos contos de ‘No pescoço’ da Chimamanda, quando ouço um barulho vindo do lado de fora. Na hora pensei que eram o búfalos que vi durante o dia e passearam o tempo todo pela reserva, mas fui surpreendido. Eram elefantes.

Elefantes são animais instigantes. Chamam atenção pelo tamanho, pela aparente docilidade e pelo fato de serem tão dados a rotina familiar. Andam juntos, comem juntos e morrem juntos.

Alguns acreditam que animais intuem a morte de membros da sua matilha, manada ou bando. Outros desacreditam, como Phillipe Àries e Norbert Elias.

No entanto, há relatos de que elefantes não só pressentem como são capazes de reconhecer membros da sua manada mesmo após anos separados. Li isso em ‘Uma história social do morrer’, do medico Allan Kehellear, que escreveu a respeito.

Fato é que a morte está entre os animais e alguns choram a perda de membros do seu grupo, como alguns tipos de macacos. O que prova que a morte perpassa o entendimento humano e independe dessa condição para que seja sentida, como provam os animais.

Carlos Heitor Cony

“Quando a vida é opaca, inútil ou qualquer coisa desse gênero,

a vida fica só na expectativa da morte.

Uma pessoa que morre mas fez alguma coisa de importante,

digamos Fleming, que descobriu a penicilina; Santos Dumont, que voou

(…) e também escritores e poetas, evidentemente Homero, superaram a vida.

E assim todos os grandes autores, poetas e artistas provaram essa verdade.”

Em entrevista ao canal Philos, em 7 de junho de 2016

Fonte : https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/06/Carlos-Heitor-Cony-cronista-incans%C3%A1vel-em-7-cita%C3%A7%C3%B5es-marcantes

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