IKU, A MORTE

 

Iku está passando. Tenha calma, não faça movimentos bruscos, siga devagar. Respeito. A morte não aceita acinte. Num susto pode te esbarrar. Cuidado. A morte não erra o dia nem o endereço, mas anda abrupta e num simples toque, por mais leve que seja, te arranca o sopro. Um dia ela cruzará o caminho de todos, mas não se ponha em sua frente. Respeite Iku, respeite a morte.

 

Por: Rodney Willian Eugênio

Ironia da liberdade

Ironia da liberdade

Disseram a José, quando este nasceu, que a vida lhe cobraria alguns centavos a gosto. José, nascido no terceiro dia do segundo mês, pensou que a cobrança seria feita em trabalho. A gosto de quê? A troco do puro gosto? José, assim que nascido, só não fora trabalhar porque um tal de Girino lhe dissera: vem cá, tem de esperar! Mas José, estando nascido lá no sertão dos Corais, não sabia que o valor seria tão alto quanto lhe queriam creditar.

Nasceu, cresceu, e perguntara: o que faço ainda eu por tanto trabalhar? Já pagara os alguns centavos a gosto que me disseram: “haverá a vida de cobrar”? José, já falecido, coitado, fora marido, pai e avô. Mas sempre devedor desses centavos que o mundo não cessara: cobrara-lhe por pura dor.

Victhor Fabiano, da coletânea Guerra da Minha Ruavicthor

Deus morto

Deus morto

Edin Sued Abumanssur *

Desde criança aprendi que nós, os protestantes, não gostamos da imagem do crucifixo. Nossa ênfase era na cruz vazia e mais, no túmulo vazio. Cremos no Deus ressuscitado. Precisei ficar velho para entender e começar a gostar da cruz com aquele homem crucificado. A imagem é cruel e violenta, mas o sentido daquela imagem é pior. E eu gosto.

Gosto, mas não pela violência explícita e sim por aquilo que ela afirma: abandono, solidão, desilusão. “Deus meu, Deus meu… por que me abandonaste?”. Gosto porque me identifico com esse abandono, esse desamparo, essa solidão. Olhando para o crucifixo penso que, talvez, o cristianismo seja a única religião que afirma crer em um Deus morto. E gosto disso.

A cena que crio em minha mente sobre o episódio da paixão é de uma multidão em festa em Jerusalém, alegre e cheia de vida. O povo dançando e cantando nas ruas, dias iluminados e felizes. No entanto, a mesma multidão que o recebeu eufórica e esperançosa cantando “hosanas ao Filho de Davi”, poucos dias depois, prefere a Barrabáz aos gritos de “crucifica-o, crucifica-o”. Os soldados levantam a cruz com o salvador pregado nela e o povo, aos poucos, vai voltando para suas casas, suas rotinas e suas misérias. Ao final, restam ali, no Calvário, umas poucas mulheres abraçadas, chorando baixinho, buscando um consolo que não vem de nenhum lugar.

O desalento, a frustração, o medo, a incerteza, de alguma forma fazem parte do cristianismo e estão no centro da fé cristã. O salvador está morto, o Messias falhou, Deus nos abandonou, não há a quem recorrer.

Crer sem razão para crer, esperar contra toda esperança. Deus morreu, viva Deus!

 

 

* Professor vinculado ao Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

Éramos oito

Por Daniel Pereira 

A morte é corriqueira na periferia das grandes metrópoles. O Estado negligente, propicia que famílias sejam destroçadas das formas mais violentas possíveis.

Sueli, mulher negra, criada pela vida, como muitas outras jovens do seu tempo foi mãe muito cedo. Aos 17 anos dera à luz a Roberto, seu primogênito. Depois, vieram os demais filhos, Bronze, Claudia, Daniel, Anderson, Wellington e a temporã, Natalia. Cresciam na favela vigiados pelos vizinhos enquanto a mãe saía em busca do sustento.

Ninguém jamais podia imaginar o que estava reservado àquela família. Tendo início no ano de 1990, o Bronze foi assassinado por ter sido confundido pelos traficantes de outra favela onde foi se refugiar. Em 1.993, Roberto foi morto à balas por ciúme do ex-marido da mulher com quem estava se envolvendo. Mesmo acostumada à luta e ao sofrimento impostos pela vida, Sueli vira seu coração dilacerado pela violência. Nenhuma mãe deveria enterrar seus filhos!

O ano era 1997. Após Sueli discutir com um rapaz que estava brigando com seu sobrinho por conta de crack, sob o efeito das drogas ele voltou até seu apartamento, pediu para lhe dar um abraço e covardemente a agarrou pelo pescoço, desferindo um certeiro tiro no meio da testa. Causa mortis: choque séptico; agente perfuro contundente.

Ela se foi e deixou órfãos cinco filhos, sendo apenas uma maior de idade; os demais variavam entre 17 e 2 anos de idade, além de sobrinhos que criava e seu neto. Daniel lidava com a perda da mãe se trancando no quarto onde ela dormia e, não era raro, retomar à consciência chorando sobre o túmulo da progenitora. Os demais não conseguiram se livrar das garras do vício e se entregaram às drogas. Quem poderia julgá-los?

Os que ficaram, não sabiam que Iku (a personificação da morte para o povo ioruba) ainda não havia se resolvido com eles. Em 2001, Wellington, o irmão caçula, pegou uma carona maldita com amigos e o carro em que estava foi alvejado por motoqueiros encapuzados. Dos cinco ocupantes do veículo, só ele foi atingido e morreu. Pobre infeliz. No ano de 2001,após separar uma briga do primo no baile em que estava, Anderson, ao sair do salão acompanhado por uma garota, foi seguido pelos seus assassinos. Ao virar a esquina, chamaram seu nome e ao se virar, fora atingido por tiros que tiraram a vida do casal. Detalhe: dos homens, nenhum chegou aos 30 anos de idade.

Restaram duas mulheres, sendo que Claudia já havia perdido a dignidade por conta do uso de drogas, Natalia e Daniel. Em 2010, cansado de enterrar seus familiares mortos de forma violenta, um alívio: ao retornar para casa após mais uma noite fazendo uso de drogas e álcool, Claudia foi encontrada morta sobre a cama que dormia. Infarto fulminante.

Como será que fica o emocional de alguém que fora exposto à esta sorte de violência? Perder a família toda de maneira trágica é ou não uma brincadeira da morte? Por fim, dos sete filhos de Sueli, apenas dois se livraram das artimanhas da morte? Até que não consigam mais enganá-la, vida se que segue…

Necrópsia da vida

Necrópsia da vida

Por Luciana Cerqueira

para a mulher  que ensinou-me

as coisas simples: Joelma

 

Nós somos enigmáticos porque somos poéticos diz a escritora. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Ela em sua primeira gravidez viu crescer imensamente seu corpo de mulher que baila, bailou e voou e borboleteou sua mocidade e depois da longa espera viu seu menino amado esperado bater as asas.

Os laços entre ela e o amado desfizeram-se no líquido amniótico. E descobriu-se prenhe da poesia, do artesanato, do belo, enfim veio uma menina que desde sempre mostrou seus olhos de paixão e mulher, observando menina, brincando de arte e literatura. De gato e desenho.

Mas, mas… Mas aquele homem estava tomado pela cegueira branca que o escritor tanto ensaiou e Julianne Moore conversou com as gentes na sala escura mostrando-nos que é preciso observar.

E eu retorno para as primeiras linhas dessas histórias tecidas e entretecidas, nossas primeiras indagações como quem olha o transcorrer do dia e a vida dentro dos transportes públicos e rememora os contos da vida: nós somos enigmáticos porque somos poéticos como nos disse a escritora anteriormente. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Somos formados de poesia biológica: nossa carne. Poeira de estrelas. Uma luz que vagueia nas águas do mar, na ressaca e no seu brilho ao sol. Somos a vida e o milagre. A pintura e a organização da mulher: somos.

Somos os nossos ossos em nossa pele e tomados de paixão.  Voltando a ela, tornou-se mãe e foi tomada de tanto amor, uma lucidez do viver e ao mesmo tempo a insanidade das compras rica-pobres nas lojas de R$ 1,00, nos bazares, nos sebos e em tudo que se podia economizar enquanto via que o mundo enlouquecia cada minuto mais e foi criando a filha e a menina crescendo em sonhos, no recato e na selvageria que é o crescer de uma mulher com luz e carisma.

Depois de tudo aprender nos finos tratos de mulher: manicure, pedicure, bordar, pintar em tecido, crochetar, tricotar, cozinhar, não, não a fina cozinha dos aromas todos que se pede uma beleza cozer com ervas e especiarias, mas aquela do pão de cada dia.

O pão de cada dia feito às madrugadas e comido em vários amanheceres com os irmãos e o pai – com quem aprendeu a dançar, acordar e dormir cedo e amar a terra – e com a filha seu maior carinho e diálogo.    Depois de tanta vida, tanto aprender, tanto fazer e desfazer malas, mobiliar casas, decorá-las e enfeitá-las, e lá foi ela encontrar a ceifadora de todas as horas e tempos dizendo: quero ser auxiliar de necrópsia.

Viu, observou, olhou tanta vida entre as entranhas de mulheres violentadas. Tantas dores ela pôde perceber que naqueles corpos ao realizar as necrópsias e, também, nos marejados olhos dos familiares desses mortas mulheres. Ela encarou de frente tantos corpos nus e despidos da vida que submergiu a vida e emergiu voltando a amar a viver, decorar a nova casa, pintar as unhas e tecer novamente outras histórias e histórias…

Mas essa, essa é ela…

 

Vazio de morte, uma dor que não termina

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Por Marcelo Hailer

Costumo dizer aos meus amigos que sou um ateu espiritualista, obviamente, todos riem da minha cara e dizem que tal coisa não existe. Concordo, mas, depois de alguns trabalhos com ayuasca confesso que o meu materialismo é sim um tanto espiritualista. Existem algumas conexões que estabelecemos em vida que a objetividade da vida cotidiana não explica. É sobre ela que quero falar, mas claro atrelada à dor de perder pessoas amadas cuja conexão jurávamos que seria para toda a vida. Pensando bem, é sim para o resto do tempo, porém, a mediação que antes era feita pela vida e pelos encontros, passa a ser feita pela morte e pela ausência.

Por duas vezes a morte levou pessoas que eu amava – amo – demais. A primeira foi a minha mãe, Sandra, quando eu tinha 18 anos. A segunda foi Ana, uma grande amiga, inesperável… Sabe aquela história de amor à primeira vista, então, comigo e com a Ana foi assim. Do primeiro encontro não nos separamos nunca mais. Felizmente só tenho excelentes memórias com estas duas mulheres que são responsáveis pela pessoa que me tornei.

Vou falar sobre o amor, mas também vou falar sobre a morte.

A minha mãe foi acometida pro uma doença, à época praticamente abandonei os estudos para acompanha-la no hospital. Lembro até hoje do momento em que a enfermeira entrou no quarto e me disse que seriam as últimas horas dela e que eu deveria avisar toda a família. Árdua tarefa, a cada telefonema uma despedida. Minha mãe era o tipo de pessoa que centralizava todos à sua volta, com a sua partida tudo se despedaçou, todos se desencontraram.

Lembro que, sempre que me perguntavam como eu estava eu respondia que era como se uma pilastra que dava sustentação a um prédio tivesse sido arrancada. Eu estava literalmente no chão. Não há tempo que cure este vazio.

Ana era a minha grande amiga e parceira. Fomos apresentados pela Luanda – outra grande amiga e parceira – foi uma conexão maluca e no dia seguinte ela já estava me ligando para eu ir à sua casa. Isso se daria pelos próximos 16 anos. Tornamos-nos um trio inseparável, estávamos sempre juntos, nos momentos maravilhosos e naqueles bem merda. Resolvíamos tudo com cerveja, cigarro e muitas risadas, às vezes algum choro.

O que eu não sabia é que aquela noite de fevereiro de 2016 seria a nossa última celebração. Conversamos até altas horas e ela me trouxe para casa, como de costume. A Ana estava cansada desse mundo baixo em que vivemos e resolveu voar… E com certeza o seu voo foi alto.

O dia a dia ordinário era pequeno demais para Ana.

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A nossa cultura não nos prepara para a morte, por conta disso nunca a colocamos em nosso horizonte. Não trabalhamos com a ideia de que nossos pais vão morrer, não lidamos com o fato de que os nossos grandes amigos podem partir antes de nós.

O dia seguinte da morte é algo indescritível, o tempo fica suspenso, não existe mais horizonte. Na primeira vez teve o fato de que fui viver em outra cidade, ajudou a lidar com a ausência de minha mãe, era o Rio de Janeiro e vários amigos novos.

Na segunda vez não. Não houve uma despedida formal. A ferida que já carregava pela morte de minha mãe, aumentou e se tornou um rombo sem proporções em meu espírito. E, se alguém lhe disser que a dor de morte vai passar, não acredite, não passa e talvez tenha que ser assim mesmo.

É preciso chorar a morte, é preciso refletir sobre ela.

Quando as pessoas que amamos morrem, nós também morremos. A vida se revela breve e finita. Os sonhos se tornam mais próximos. Mas, as novas amizades e amores tornar-se-ão distantes.

Por estarmos um tanto mortos não queremos compartilhar da morte e também não queremos recebe-la novamente. Mas ela vai voltar. A morte sempre volta para nos lembrar de que tudo acaba.

Com a morte eu deveria ter me tornado ainda mais materialista, mas se deu ao contrário, pois, tanto na morte de minha mãe quanto da minha amiga Ana vivenciei experiências que só a ligação espiritual pode explicar. Foram dois sonhos e vou falar sobre eles.

Eu já estava morando no Rio de Janeiro e lembro que, neste dia acordei estranho, sentido coisas que não sabia explicar, não fui ao colégio. Depois do almoço resolvi dormir. A imagem do sonho surge na minha mente como se tivesse sido ontem: eu entrei em um quarto repleto de camas, uma forte luz branca a tudo cobria, ao fim do corredor formado pelos leitos encontrei a minha mãe sentada em uma cadeira de palha. Estava com o seu aspecto jovem: cabelos longos, unhas pintadas de vermelho e batom também vermelho. Peguei a sua mão e não queria mais soltar, queria permanecer ali. Foi ela quem me empurrou e declarou que eu deveria ir embora. Eu acordei chorando, mas, ao mesmo tempo uma sensação de alívio se apossou de mim. Dali pra frente eu conseguia falar sobre ela. Eu a libertei e a deixei partir de vez.

Com a Ana foi mais intenso. Eu corria por entre pedras e areias de uma praia, e estava desesperado, pois precisava encontra-la, parecia que algo ia acontecer com ela. De repente, ela chamou por mim, eu escutava o forte barulho de um rio. Corria, corria e não a encontrava. Depois de um tempo e bem cansado a encontrei nos braços de uma mulher que a acariciava nos cabelos. Ana dormia no colo de sua mulher, porém, a entidade que a segurava a soltou na correnteza e a Ana despareceu entre as águas. Acordei igualmente desesperado. Velhas culpas e questões voltaram: não corri o suficiente para ajudar a minha amiga. Por mais que a nossa história mostre o contrário, esta é uma culpa que vou carregar para sempre. Eu poderia ter corrido mais. Mas, eu precisava libertar a Ana. Fui a um centro espirita e lhe ofereci uma oração.

Hoje, quando penso sobre estes dois sonhos enxergo forte semelhança. Sandra e Ana, duas pessoas que até hoje eu não aceito a partida, mas elas se foram… Por mais que a minha dor de morte seja perpétua, tive que libertá-las.

A morte é isso também: libertar quem morreu.

Não existe uma conclusão para este texto, ele é mais um compartilhamento de morte. Não existe conclusão para a morte, seja para quem vai, seja para quem fica.

Quando a morte se materializa, tudo se transforma.

A morte passa a ser o nosso cotidiano, pois, como é sempre bom lembrar, tudo acaba.

A morte está aí para nos lembrar de que tudo é finito.

Meu funeral será uma grande festa…

Por Juliana Sawaia

Meu funeral será uma grande festa, pena que participarei deitado.

Li esta frase num livro onde o personagem principal, vítima de uma doença letal, opta pelo suicídio assistido. Ao passear pela narrativa tão desconcertante e bem humorada de quem escolheu data e hora da sua própria morte, me senti invadida por uma afinidade perversa.

Participar de qualquer festa deitado, não deve ser divertido mesmo.

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Imagem: http://www.louletania.com/funerais-de-antigamente/

Em uma de suas frases, Marcello Marchesi, escritor italiano, afirma que o importante é que a morte nos encontre vivos. Sendo assim, todas as reflexões sobre estar ou não vivo residem no silêncio de sentir-se como tal. E, qualquer fragmento de inverdade, ainda que Naïf, neste hiato, deve ser respeitado e celebrado. Há, entretanto, um contrassenso hiperbólico. Ele, o tal suicídio, covarde, corajoso e solitário, torna-se um evento moribundo e humanizado, pela simples consciência camuflada no desígnio, quase coletivo, da hora de partir.

Me pego pensando nos espectadores melancólicos e intrometidos às voltas com sua impotência. Enquanto o protagonista organiza com saudosismo sua mala invisível, os coadjuvantes vestem seus sentimentos como quem escolhe uma roupa fúnebre.

Gorjeta e Panela

Por Liane Rossi

Tive um gato que apertava os olhinhos pra mim, pra dizer que me amava. Criamos essa dinâmica, eu apertava os olhos pra ele e ele pra mim. O nome dele era Gorjeta.

Ele chorava na porta do meu quarto toda noite. Uma dessas noites coloquei na caminha dele a camiseta que tirei do corpo. Ele deitou em cima e parou de se lamentar. Criamos essa dinâmica. O nome dele era Gorjeta.

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Adoeceu uma vez e no hospital veterinário o médico perguntou se seria difícil coletar o sangue. Nunca tínhamos feito isso antes, mas achei que não seria. Ele encostou a cabeça na minha barriga e ficou imóvel . O médico ficou encantado. O nome dele era Gorjeta.

Ele se sentava em frente a mim e não desviava os olhos verdes melados, até adormecer, sentado, dormindo de tanto amor. O nome dele era Gorjeta.

Era um gato preto enorme, com o pescoço igual o do Mike Tyson. Faz seis anos que ele morreu e hoje eu precisava muito lembrar e contar dele. O nome dele era Gorjeta.

Era filho da Panela, que morreu a poucos meses. Eram do vizinho da outra rua e me adotaram. E foram meus e fui deles. O nome deles era Gorjeta e Panela.

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Podemos ler outro relato em: Por que o luto por animais de estimação, apesar de doloroso, ainda não é reconhecido? 

O enterro do pai de santo

Por Rodney William Eugênio

Ela tinha apenas nove anos quando foi tomada pela força de Iansã. Franzina ainda, corpo de menina. Tornava-se mulher ao som dos atabaques, dançando lindamente, flutuando com as mãos ao vento, espantando as forças nefastas, limpando o terreiro com seus brados de axé. Seu pai, o babalorixá, tinha mais de 40 anos quando a mãe a entregou antes de sair pelo mundo.

Era a filha, a herdeira. Era seu maior orgulho. E cresceu feliz com todas as outras crianças do terreiro. Sob o cuidado das velhas, suas tias, a quem dedicava respeito e obediência. O pai a preparava, era rígido, às vezes até exagerava. Era um amor, um dengo, mas não era fácil, não. E ela não contestava, era uma boa filha, era seu maior orgulho.

Na lida do candomblé ela cresceu. Estudou, se formou, foi trabalhar. O terreiro estava bem estruturado e exercer uma profissão lhe dava um grau de liberdade que a rigidez do ritual nem sempre permitia. Como o pai estava envelhecendo, passou a casa para o nome da filha, que nessa altura andava de namoro com um rapaz da vizinhança.

Um dia ela chega para o pai e conta que está grávida. O pai resistiu à ideia de casamento: “Cuido de você e do meu neto”.  Mas ela estava apaixonada. Foi uma linda festa, com a certidão do cartório e a bênção dos orixás. Nasceu o neto e vieram os problemas: o marido não queria ouvir falar de candomblé, afastando a esposa e o filho do terreiro.

Para desgosto do velho pai de santo, com quase 70 anos, a família se converteu. A filha tão querida, sua herdeira, regida por Iansã, tornara-se evangélica. Um desgosto. Mesmo com todo o apoio da comunidade, com o carinho dos filhos e filhas de santo e da velha tia, a única que sobrara forte apesar dos mais de 80 anos, o pai de santo não conseguiu suportar. Entregou-se à tristeza, à dor e sucumbiu com um tumor no estômago.

A morte era esperada, mas o terreiro estava em choque. Quando a primeira quartinha foi emborcada, um misto de angústia e dúvida pairou como névoa: “O que será de tudo isso? O que será de nós?” Preocupações necessárias. Com a herdeira e única filha afastada, a continuidade do terreiro estava em xeque.

A velha tia tomou a frente. Reteve o choro, escondeu a dor e delegou a função de cada um: “Vai chorando e vai fazendo”. O corpo chegou e antes mesmo que fosse tirado do carro funerário, a filha cruzou o portão feito um raio, dura, irascível. “Pode parar”, gritou secamente. “Aqui não vai ter velório nenhum”. Os filhos de santo se revoltaram, os orixás se manifestaram, a vizinhança parou. A velha tia se manteve calma, não moveu os olhos, não franziu uma ruga.

A filha não vinha só, trazia o marido, o filho, o advogado, o pastor e os irmãos da igreja. Nem eram tantos, o pessoal do terreiro até podia resistir, mas ela tinha a escritura e a lei a seu favor. O velho pai morreu dizendo: “Você pode conhecer sua filha, mas você não sabe com quem ela vai casar”.

Discutiram, negociaram e chegaram a um acordo: a filha não tocaria no corpo e o povo do terreiro entregaria a chave e consentiria o velório no cemitério. Não era o que recomendava a tradição, em se tratando de um babalorixá daquela estatura, mas os atos religiosos estavam feitos e seria uma vergonha ver a filha colocar aquele terno preto no pai que viveu e morreu aos pés do orixá. A velha tia ponderou: “É melhor assim”. Seguiram para o cemitério municipal.

A filha prostrou-se ao lado do féretro e recebia com frieza e certo desdém os cumprimentos do povo do axé. Até os pais e mães de santo que a viram crescer, gente que veio da Bahia, do Rio de Janeiro, para se despedir daquele homem tão querido. Os vizinhos que conheciam bem aquela história e lamentavam a morte de um grande líder que sempre ajudou a todos.

A morte era triste, mas não era nada comparada àquela situação. Um velho amigo tentou fazer uma homenagem. “Aqui não vai ter cantoria”, repreendeu a filha. Meia hora antes do enterro, o padre passou para oferecer seus préstimos, ela o escorraçou. Mesmo depois de horas ao lado do caixão, continuava incólume, sem derramar uma lágrima.

Inconformados, os filhos de santo não acreditavam que depois de tanto esforço e luta para manter uma comunidade, tudo acabaria daquela forma. A velha tia seguia estática, num transe triste, introspectivo.

Chegou a hora do enterro. A filha chamou os irmãos da igreja, mas antes que pudessem pegar nas alças do caixão, as mãos fortes de seis ogans do terreiro o fizeram. A filha pensou em gritar, mas quando a voz da velha tia entoou o cântico, os ogans entenderam seu olhar e ergueram o caixão aos ombros. Um vento se desprendeu do vácuo, a filha rodopiou num giro abrupto e sentiu a força de Iansã. Em um segundo, uma multidão toda de branco tomou cada espaço.

Vieram todos os orixás, mas Iansã seguiu na frente. Sacudindo os braços, tremendo os ombros e abrindo caminho para o cortejo com sua rama de folhas de peregun. As tias da Bahia comentaram entre si:

– Oxê, mas ela não se converteu?

– Ela se converteu, mas Iansã não.

E aquele povo de branco, aquele tapete de paz e consolo, tomou conta das alamedas. Iansã se pôs na beira da sepultura, e quando o caixão bateu na terra, soltou seu brado estridente: “Hei…”, e também suas lágrimas, as lágrimas que sua filha tanto segurou.

O corpo retornou à terra, a multidão deu as costas e a vida seguiu. A filha despertou do transe, mas não conteve a tristeza. A velha tia juntou-se a ela. Choraram juntas.

– Bênção, minha mãe.

– Ô, minha filha, que pai Oxóssi te abençoe.

– Aqui tá a chave e a escritura. Vou em casa me trocar e já lhe vejo no terreiro.

– Vai, minha filha, vai que tem muito trabalho pela frente.

O marido tentou intervir, mas depois daquele olhar só teve coragem para dizer: “Vai, bem, deixa que eu tomo conta do pequeno”.

Texto extraído do sítio eletrônico da Carta Capital . Acessado em 03/11/2017, 14h22′.

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