Ironia da liberdade

Ironia da liberdade

Disseram a José, quando este nasceu, que a vida lhe cobraria alguns centavos a gosto. José, nascido no terceiro dia do segundo mês, pensou que a cobrança seria feita em trabalho. A gosto de quê? A troco do puro gosto? José, assim que nascido, só não fora trabalhar porque um tal de Girino lhe dissera: vem cá, tem de esperar! Mas José, estando nascido lá no sertão dos Corais, não sabia que o valor seria tão alto quanto lhe queriam creditar.

Nasceu, cresceu, e perguntara: o que faço ainda eu por tanto trabalhar? Já pagara os alguns centavos a gosto que me disseram: “haverá a vida de cobrar”? José, já falecido, coitado, fora marido, pai e avô. Mas sempre devedor desses centavos que o mundo não cessara: cobrara-lhe por pura dor.

Victhor Fabiano, da coletânea Guerra da Minha Ruavicthor

Necrópsia da vida

Necrópsia da vida

Por Luciana Cerqueira

para a mulher  que ensinou-me

as coisas simples: Joelma

 

Nós somos enigmáticos porque somos poéticos diz a escritora. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Ela em sua primeira gravidez viu crescer imensamente seu corpo de mulher que baila, bailou e voou e borboleteou sua mocidade e depois da longa espera viu seu menino amado esperado bater as asas.

Os laços entre ela e o amado desfizeram-se no líquido amniótico. E descobriu-se prenhe da poesia, do artesanato, do belo, enfim veio uma menina que desde sempre mostrou seus olhos de paixão e mulher, observando menina, brincando de arte e literatura. De gato e desenho.

Mas, mas… Mas aquele homem estava tomado pela cegueira branca que o escritor tanto ensaiou e Julianne Moore conversou com as gentes na sala escura mostrando-nos que é preciso observar.

E eu retorno para as primeiras linhas dessas histórias tecidas e entretecidas, nossas primeiras indagações como quem olha o transcorrer do dia e a vida dentro dos transportes públicos e rememora os contos da vida: nós somos enigmáticos porque somos poéticos como nos disse a escritora anteriormente. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Somos formados de poesia biológica: nossa carne. Poeira de estrelas. Uma luz que vagueia nas águas do mar, na ressaca e no seu brilho ao sol. Somos a vida e o milagre. A pintura e a organização da mulher: somos.

Somos os nossos ossos em nossa pele e tomados de paixão.  Voltando a ela, tornou-se mãe e foi tomada de tanto amor, uma lucidez do viver e ao mesmo tempo a insanidade das compras rica-pobres nas lojas de R$ 1,00, nos bazares, nos sebos e em tudo que se podia economizar enquanto via que o mundo enlouquecia cada minuto mais e foi criando a filha e a menina crescendo em sonhos, no recato e na selvageria que é o crescer de uma mulher com luz e carisma.

Depois de tudo aprender nos finos tratos de mulher: manicure, pedicure, bordar, pintar em tecido, crochetar, tricotar, cozinhar, não, não a fina cozinha dos aromas todos que se pede uma beleza cozer com ervas e especiarias, mas aquela do pão de cada dia.

O pão de cada dia feito às madrugadas e comido em vários amanheceres com os irmãos e o pai – com quem aprendeu a dançar, acordar e dormir cedo e amar a terra – e com a filha seu maior carinho e diálogo.    Depois de tanta vida, tanto aprender, tanto fazer e desfazer malas, mobiliar casas, decorá-las e enfeitá-las, e lá foi ela encontrar a ceifadora de todas as horas e tempos dizendo: quero ser auxiliar de necrópsia.

Viu, observou, olhou tanta vida entre as entranhas de mulheres violentadas. Tantas dores ela pôde perceber que naqueles corpos ao realizar as necrópsias e, também, nos marejados olhos dos familiares desses mortas mulheres. Ela encarou de frente tantos corpos nus e despidos da vida que submergiu a vida e emergiu voltando a amar a viver, decorar a nova casa, pintar as unhas e tecer novamente outras histórias e histórias…

Mas essa, essa é ela…

 

São tantas as simpatias para se perder o medo das coisas.

Tinha muito medo de defuntos.

Me ensinaram a passar embaixo do caixão, três vezes. Fiz.

 

Fui enxotado do velório. Mas o medo passou.

 

 

O enterro do pai de santo

Por Rodney William Eugênio

Ela tinha apenas nove anos quando foi tomada pela força de Iansã. Franzina ainda, corpo de menina. Tornava-se mulher ao som dos atabaques, dançando lindamente, flutuando com as mãos ao vento, espantando as forças nefastas, limpando o terreiro com seus brados de axé. Seu pai, o babalorixá, tinha mais de 40 anos quando a mãe a entregou antes de sair pelo mundo.

Era a filha, a herdeira. Era seu maior orgulho. E cresceu feliz com todas as outras crianças do terreiro. Sob o cuidado das velhas, suas tias, a quem dedicava respeito e obediência. O pai a preparava, era rígido, às vezes até exagerava. Era um amor, um dengo, mas não era fácil, não. E ela não contestava, era uma boa filha, era seu maior orgulho.

Na lida do candomblé ela cresceu. Estudou, se formou, foi trabalhar. O terreiro estava bem estruturado e exercer uma profissão lhe dava um grau de liberdade que a rigidez do ritual nem sempre permitia. Como o pai estava envelhecendo, passou a casa para o nome da filha, que nessa altura andava de namoro com um rapaz da vizinhança.

Um dia ela chega para o pai e conta que está grávida. O pai resistiu à ideia de casamento: “Cuido de você e do meu neto”.  Mas ela estava apaixonada. Foi uma linda festa, com a certidão do cartório e a bênção dos orixás. Nasceu o neto e vieram os problemas: o marido não queria ouvir falar de candomblé, afastando a esposa e o filho do terreiro.

Para desgosto do velho pai de santo, com quase 70 anos, a família se converteu. A filha tão querida, sua herdeira, regida por Iansã, tornara-se evangélica. Um desgosto. Mesmo com todo o apoio da comunidade, com o carinho dos filhos e filhas de santo e da velha tia, a única que sobrara forte apesar dos mais de 80 anos, o pai de santo não conseguiu suportar. Entregou-se à tristeza, à dor e sucumbiu com um tumor no estômago.

A morte era esperada, mas o terreiro estava em choque. Quando a primeira quartinha foi emborcada, um misto de angústia e dúvida pairou como névoa: “O que será de tudo isso? O que será de nós?” Preocupações necessárias. Com a herdeira e única filha afastada, a continuidade do terreiro estava em xeque.

A velha tia tomou a frente. Reteve o choro, escondeu a dor e delegou a função de cada um: “Vai chorando e vai fazendo”. O corpo chegou e antes mesmo que fosse tirado do carro funerário, a filha cruzou o portão feito um raio, dura, irascível. “Pode parar”, gritou secamente. “Aqui não vai ter velório nenhum”. Os filhos de santo se revoltaram, os orixás se manifestaram, a vizinhança parou. A velha tia se manteve calma, não moveu os olhos, não franziu uma ruga.

A filha não vinha só, trazia o marido, o filho, o advogado, o pastor e os irmãos da igreja. Nem eram tantos, o pessoal do terreiro até podia resistir, mas ela tinha a escritura e a lei a seu favor. O velho pai morreu dizendo: “Você pode conhecer sua filha, mas você não sabe com quem ela vai casar”.

Discutiram, negociaram e chegaram a um acordo: a filha não tocaria no corpo e o povo do terreiro entregaria a chave e consentiria o velório no cemitério. Não era o que recomendava a tradição, em se tratando de um babalorixá daquela estatura, mas os atos religiosos estavam feitos e seria uma vergonha ver a filha colocar aquele terno preto no pai que viveu e morreu aos pés do orixá. A velha tia ponderou: “É melhor assim”. Seguiram para o cemitério municipal.

A filha prostrou-se ao lado do féretro e recebia com frieza e certo desdém os cumprimentos do povo do axé. Até os pais e mães de santo que a viram crescer, gente que veio da Bahia, do Rio de Janeiro, para se despedir daquele homem tão querido. Os vizinhos que conheciam bem aquela história e lamentavam a morte de um grande líder que sempre ajudou a todos.

A morte era triste, mas não era nada comparada àquela situação. Um velho amigo tentou fazer uma homenagem. “Aqui não vai ter cantoria”, repreendeu a filha. Meia hora antes do enterro, o padre passou para oferecer seus préstimos, ela o escorraçou. Mesmo depois de horas ao lado do caixão, continuava incólume, sem derramar uma lágrima.

Inconformados, os filhos de santo não acreditavam que depois de tanto esforço e luta para manter uma comunidade, tudo acabaria daquela forma. A velha tia seguia estática, num transe triste, introspectivo.

Chegou a hora do enterro. A filha chamou os irmãos da igreja, mas antes que pudessem pegar nas alças do caixão, as mãos fortes de seis ogans do terreiro o fizeram. A filha pensou em gritar, mas quando a voz da velha tia entoou o cântico, os ogans entenderam seu olhar e ergueram o caixão aos ombros. Um vento se desprendeu do vácuo, a filha rodopiou num giro abrupto e sentiu a força de Iansã. Em um segundo, uma multidão toda de branco tomou cada espaço.

Vieram todos os orixás, mas Iansã seguiu na frente. Sacudindo os braços, tremendo os ombros e abrindo caminho para o cortejo com sua rama de folhas de peregun. As tias da Bahia comentaram entre si:

– Oxê, mas ela não se converteu?

– Ela se converteu, mas Iansã não.

E aquele povo de branco, aquele tapete de paz e consolo, tomou conta das alamedas. Iansã se pôs na beira da sepultura, e quando o caixão bateu na terra, soltou seu brado estridente: “Hei…”, e também suas lágrimas, as lágrimas que sua filha tanto segurou.

O corpo retornou à terra, a multidão deu as costas e a vida seguiu. A filha despertou do transe, mas não conteve a tristeza. A velha tia juntou-se a ela. Choraram juntas.

– Bênção, minha mãe.

– Ô, minha filha, que pai Oxóssi te abençoe.

– Aqui tá a chave e a escritura. Vou em casa me trocar e já lhe vejo no terreiro.

– Vai, minha filha, vai que tem muito trabalho pela frente.

O marido tentou intervir, mas depois daquele olhar só teve coragem para dizer: “Vai, bem, deixa que eu tomo conta do pequeno”.

Texto extraído do sítio eletrônico da Carta Capital . Acessado em 03/11/2017, 14h22′.

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