Às duras penas, eu diria, não teve flores ! 

Ha coisas que me interessam saber dentro de um velório, sobretudo como aquele corpo morto chegou até ali. Em geral, alguns velórios são cheios de flores, choros e velas. Digo alguns, pois no caso de indigentes as condições de inumação são sempre bastante questionáveis, ainda que exista uma legislação que cuide desse fato.

Me parece também que flores, choros e velas compõem o fato de que aquela pessoa falecida formou uma trajetória que fará com que os presentes – amigos e familiares – sintam dolorosamente a perda. É quase um elogio fúnebre (lembremos das lápides em Atenas e os discursos pela honra e coragem dos heróis mortos em batalha),  o pesar por aquele que se foi e aqueles do entorno, por isso as homenagens em flores, choros e velas, mesmo que as sociedades modernas apressem cada vez mais o velório (quando há) e o enterro.

Lembro que quando meu irmão faleceu, vitimado por um incidente, fiquei sabendo após os trâmites burocráticos serem tomados, especialmente pela minha mãe que se adiantou junto a amigos na organização das exéquias, que tudo seria o mais simples possível. Meu pai, chegando de viagem quis comprar um terno, para o qual minha mãe fez clara objeção. Considerou que não teve aquela vestimenta em vida, não caberia na morte. A falta de esforços do meu pai durante toda a vida do meu irmão, revelou que seria um certo excesso a compra do terno. Mamãe também pediu que familiares não comprassem flores. Tudo muito simples, como a vida dele havia sido. Às duras penas, eu diria, não teve flores !

Ontem num velório uma amiga me disse: no meu velório doem o dinheiro das flores. Ou seja restará o choro, já que é muito querida, sem velas já que não é cristã.

Homenagens em velórios são sempre uma forma de reverenciar àquelx que se foi. Há muitas formas, no túmulo de uma amiga querida, deixaram latas de cerveja, a bebida preferida dela.  Nunca pensei ao certo do que gostaria, embora seja possível deixar atestada em vida os desejos pós morte (quem tiver interesse, leia o artigo 1881 do Código Civil Brasileiro), fico pensando que o que tiver pode ser uma representação do que fui.

 

 

 

 

 

Por que você me contou ?

Quando recebi a notícia da morte de minha mãe senti um alívio. É estranho esse sentimento, mas posso tentar explicar.

O primeiro motivo do alívio era porque não veria aquela mulher que tanto amo (tempo presente, amor intermitente, ininterrupto) parar de sofrer. Havia ali, por parte dela, um desejo para que aquilo acabasse e ela pudesse descansar o corpo físico tão cansado, mas uma alma cheia de graça, de acordo com a sua crença.

O segundo motivo diz respeito ao fato de que sempre fomos bastante verdadeiros um com o outro. As pessoas do nosso entorno sabiam  e viam como era a nossa relação “como vocês são unidos“, “que bonito ver vocês juntos “, “nossa quanto cuidado um com o outro“. Essa verdade rendeu evidentemente muitas crises, digamos. Quando eu dizia que ia fazer alguma coisa, a resposta era de que eu estava avisando por que ja tinha feito (rs).

Claro que existiam aquelas malcriações de filho para mãe, mas nada disso anulou o que de  melhor havia em nossa relação, especialmente  por parte de uma mãe que não poupou esforços para a minha formação de caráter

Um dia falei a respeito da minha sexualidade. Foi uma conversa rápida e tensa. Com algumas perguntas por parte dela que custavam a sair de uma voz embargada. O desfecho é quase sempre conhecido por todos: uns dias estranhos, ela tentando entender e eu aliviado.

Mas a pergunta dela que nunca me saiu da cabeça: Por que você me contou ?

Vejam, a conversa em que relatei tudo que tinha passado na infância e juventude aconteceu dois meses antes da sua morte. Foi naquele momento que pude responder:

sempre fomos tão amigos, nossa relação sempre foi tão verdadeira e sincera que a única coisa que posso fazer é não esconder absolutamente nada de você. Foi libertador. Ela me abraçou.

Os dias passaram, tudo retornou a normalidade, até a internação e a notícia da doença. 30 dias indo ao hospital, falando com médicos, tentando entender o que estava acontecendo e a notícia, em exatos 30 dias, do falecimento.

 

No velório, ao chegar, uma tristeza, mas muitas certezas: a do meu amor por ela, a de que eu tinha feito tudo que podia, de que tentei trazer um conforto maior naqueles últimos anos, mas, sobretudo, de que eu tinha dito a verdade e isso nos libertou. Por isso o alívio, ela ia sem que eu tivesse precisado esconder dela qualquer fato da minha vida.

Antes de morrer, minha mãe havia me dito: vou morrer, você está criado, bem criado e com caráter. Seja sempre feliz! 

 

mae formatura

 

China confisca caixões

Pode parecer uma piada ou apenas uma medida sem qualquer importância, mas ao confiscar caixões o governo declara a impossibilidade de tratar de questões relativas a vida e a morte da sua população.

Essas questões estão relacionadas aos aspectos materiais que reverberam na impossibilidade de tratar da questão populacional e que reverbera no tratamento que se dá corpo morto e sua consequente inumação ou ao atendimento das disposições de vontade da pessoa falecida e seus familiares.

Diz respeito também as questões de ordem religiosa que  ficam suspensas a medida que, ao macular o corpo, a crença de que o espírito não receberá o descanso adequado permanecerá no cerne daqueles fazem parte do entorno da pessoa falecida.

A falta de espaço para enterros e a negação do corpo morto foram temas recorrentes no nascimento do Estado, especialmente, no período da Revolução Francesa, quando ao afastar os mortos da cidade se pretendia também negar a morte como uma questão social. Ao afastar o corpo dos familiares e amigos, se tornava uma questão sanitária e ao esconder o corpo se tornou uma questão política.

A matéria completa está no link China consfisca caixões

 

A falta de espaço nos cemitérios

 

 

Muitas pessoas não entendem a dimensão de uma medida como esse proposta pelo governo chinês.

 

 

 

 

https://jovempan.uol.com.br/noticias/mundo/china-confisca-caixoes-para-proibir-enterros.html?utm_campaign=uol&utm_source=twitter&utm_content=geral&utm_medium=social-media

Carta para meu irmão

Carlinhos,

Me lembro sempre de como todos sempre te chamavam, mesmo que tenha crescido era sempre o Carlinhos para nós todos.

Um amigo querido tem um livro chamado “Cartas Extraordinárias” ( resenha )escritas por personagens notáveis da história do mundo. Li com atenção a carta de Dostoiévski ao seu irmão Mikhail em que relatava sua situação ante a uma pena execução e a sua reversão. É uma carta linda.

Nunca te escrevi uma carta, nem uma mensagem, quase não deu tempo de dizer ‘adeus’. Acordei essa madrugada pensando que poderia fazer isso e, sem conseguir conter meus pensamentos, lembrei de muitos dos nossos momentos. Do seu instrumento musical preferido, o Tantan, do grupo A toca do Coelho e do Zeca Pagodinho que surgia no mundo do samba, do quanto queria roupas lindas e de como gostava de se vestir bem. Lembro da sua maior paixão, aquela que arrebatou seu coração.

Nem tudo foi tão bem depois de um determinado momento das nossas vidas, as vidas nas periferias continuam sendo ceifadas pela violência das drogas. Sempre brigamos muito, mas lembro que nada foi mais importante do que nossa última conversa. Foi uma felicidade voltar ao trabalho depois daquele almoço depois de você passar a semana insistindo para que acontecesse, eu precisava te falar isso. Olhando para trás, foi o mesmo que ouvir você dizer: “está tudo bem, estou livre, sinto-me livre”. Era uma despedida ? Você se adiantou ? 18 anos foi pouco tempo para você.

Lamento minha imaturidade para lidar com as suas dificuldades. Eu que parecia tão crescido, fui pequeno por pura incompreensão do que acontecia em nossas vidas ou era a inexperiência da idade? Não soube identificar um pedido de socorro.

Os anos passaram e eu fui ficando. Mamãe, tenho comigo, precisava ir te ver. Ela precisava saber como você estava nesse novo lugar e esperou que as coisas se ajeitassem um pouco mais por aqui e resolveu partir. Sinto sua falta e não são raras as vezes em que acordo e te pergunto: você poderia estar aqui, né ?

carlinhos e eu

Não falarei sobre o nosso pai. Não tenho o que falar sobre ele.

As coisas estão mais modernas nos meios de comunicação, até onde minha memória alcança cartas começavam com a pergunta sobre como se encontra o destinatário e o desejo sincero de que todos estejam bem.  Queria escrever mais, não consigo dominado pelas lembranças.

Desejo que tudo esteja tranquilo por aí, com você e com os nossos.  Te amo!

“Cartas Extraordinárias” – A carta encontra-se publicada no Blog Russianshow

Matheusa

 

Matheusa, como se identificava, está morta. Era não-binária, não escondeu nas redes sociais, como se verifica na matéria publicada pelo G1 a sua condição de vulnerabilidade financeira e por isso pediu ajuda.

Matheusa, como se identificava, está morta. Saiu de uma festa e seguiu até o Morro do 18 para ser morta. Foi julgada pelos traficantes do local, conforme nos diz a delegada.

Matheusa, como se identificava, está morta. Mas também já havia sido julgada por todos nós que permitimos que chegasse aos 35 anos, tempo médio de vida de pessoas transgêneros no Brasil.

O corpo é mídia primária, é ele quem nos codifica e informa à sociedade quem somos. Mais do indivíduos, sujeitos, coletivos, somos conceitos. A informação de que Matheusa foi morta e, possivelmente, queimada é a mostra de que conceitos no Brasil ainda não permitem que corpos trans vivam em sua dignidade. Pior, esse corpo além de não poder viver, também não pode existir – dá-se um nome, tira-se uma vida, queima-se o corpo.

Inexiste, porque o corpo tornou-se o nada.

 

(Imagem: Carta Capital)

 

 

 

 

 

44

Por volta de 1h30′ da madrugada ouviu-se um grande barulho. Era no chamado Edifício Wilton Paes de Almeida o estrondo que supostamente vinha do 5º andar, no centro de São Paulo e tirava seus moradores das suas camas. A tragédia ocorrida no dia 1º de maio tomou conta do noticiário e das redes sociais.

Daqueles que ficaram expostos durante todo o dia no Largo do Paissandu pela oportunidade de terem conseguido sair ilesos das ruínas (se é que alguém saiu ileso), até aqueles que nas seguranças dos seus lares se marcavam como seguros o que se confirma é um total despreparo das autoridades públicas para a solução da moradia no país.

Foram relatos e entrevistas durante todo o dia de urbanistas, juristas, políticos e alguns moradores. A repórter até pediu foco na criança que bebia água, como se esse fosse um fato novo – os ocupantes bebem água, atentem !!!!

Mas e os mortos ?

Outras notícias dão conta de que há até o momento 44 desaparecidos com base na lista apresentada pela assistência social da Prefeitura de São Paulo, podemos ver a notícia em Bombeiros buscam desaparecidos . Não se sabe ao certo se estavam no local do evento ou se estavam fora de suas casas, afinal era feriado.

Me estranha, no entanto, o fato de que nenhuma lista tenha sido divulgada com maior amplitude e com nomes dos moradores. Se há um registro, há nomes.  Não há destaque para essa informação. Sabemos sobre as condições do prédio, sobre a força tarefa, sobre a desigualdade que assola o país, sobre as condições indignas de segurança no local, mas não sabemos dos desaparecidos ou mortos são travestis que moravam no local, se são  refugiados ou migrantes. Não há  nomes, não há rostos !

Na morte há desigualdade quando não se permite que nossos mortes tenham nomes e tenham rostos. Não sem razão, Butler, em Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto?,  nos explica da impossibilidade do luto para o corpo morto, quando não há vida vivida naquele que se foi “Sem a condição de ser enlutada, não há vida, ou, melhor dizendo, há algo que está vivo, mas que é diferente de uma vida”.

A invisibilidade perpetuada nas normas existentes que já não permitiram que essas vidas fossem reconhecidas, em suas condições mínimas, afinal, se as pessoas não morreram na tragédia, a tragédia das condições já as matou. Por que então teríamos um nomes nessa lista ?

 

E se Tânatos, irmão do sono, nos visitasse amanhã? 

O filósofo alemão Heidegger dizia que a morte é o que nos transforma em humanos. Se aceitamos isso, segundo o filósofo nossa existência se torna autêntica, pois aceitamos os fatos como são sem criar subterfúgios.

Começamos a morrer desde o momento em que nascemos, é nessa perspectiva que vamos nos criando com o intuito de completar todas as nossas fases da vida – da infância à juventude, da juventude à vida adulta, da vida adulta à velhice. Não se trata de previsão sobre o futuro, a morte é certa.

A morte nos deixa desconfortáveis e agimos muitas vezes como se ela não existisse. Os outros morrem, eu não ! é quase uma sentença que criamos para entender a nossa vida como um processo infinito, mas reconhecendo que o outro irá partir.
Todos sabemos que estamos destinados a morrer, mas muitas vezes agimos em razão da inexistência de uma temporalidade, como se tivéssemos tanto tempo ad eternum que não fosse preciso pensar sobre esse tema.
O medo da morte nos faz criar mitos. São eles que nos ajudam a vencer o medo, a entender nossas fraquezas, a construir histórias que muitas vezes irão criar pontes para entendermos e continuarmos a nossa trajetória. São os mitos que justamente nos fazem muitas vezes driblar o tema da morte e nos permite estabelecer planos para a nossa vida.  É o futuro que nos interessa, mesmo que não se tenha a certeza de que esses planos irão se concretizar ou não.

Não vamos esquecer que tudo isso é uma forma de negar o fato de que a finitude da vida chega. Negamos a morte e nos recusamos a falar dela como fator social. O que nos incomoda ? A morte ou o agir como se ela não existisse?  Falamos da morte por eufemismos “fulano está partindo”ou “estou indo embora” quando deveríamos admitir que “fulano está morrendo” ou “eu estou morrendo” e celebrar a morte como em tantas culturas. Os Vikings não temiam a morte pois era uma honra morrer em batalha, provar a honra e a bravura, e ser recebido no salão de Valhalla.

A verdade é que da forma como pensamos a vida tendemos a pensar que sempre se é muito jovem para morrer. Sempre se é muito cedo para morrer, mas deveríamos pensar:
E se Tânatos, irmão do sono, nos visitasse amanhã?

Um convite !

A morte não é uma questão pessoal ou apenas familiar, é antes de tudo uma questão social.

Quando digo isto me refiro ao fato de que há uma intervenção direta por parte do Estado na forma como entende e contribui na forma de morrer de alguns sujeitos. Isso se reflete por meio de mecanismos que favorecem desejos individuais de determinados grupos. A disponibilização de testamento vital, a escolha de rituais fúnebres para cristãos, a disponibilização de sepultura, por exemplo, são algumas das formas.

A participação do Estado se dá também quando ele se omite diante da forma como determinados sujeitos morrem. A participação por omissão.

Vejam, que dignidade há em morrer de maneira brutal ? Nenhuma , você que está lendo deve concordar com isso. Então porque travestis e transexuais continuam sendo sistematicamente alvo de mortes brutais, sem que o Estado consiga mudar os parâmetros atuais ?

Em 2016 de toda comunidade LGBT que foi morta, 40% eram de pessoas travestis e transexuais. Vejamos 2016 em números:

– 343 lgbt assassinados (173 gays, 144 trans, 10 lésbicas, 4 bissexuais)
– uma morte a cada 25 horas
– 31% com armas de fogo
– 27% com armas brancas
– no Brasil se mata mais do nos 13 países do Oriente e e Africa que possuem pena de morte
Dados do Grupo Gay da Bahia.

Em 2017, esse número saltou de 40% para a marca de 45%, num total de 179 mortes. As mortes são sempre cometidas com requintes de crueldade – faca, tiro, espancamento, mutilação. Esses números podem ser analisados meio do Dados sobre mortes de travestis e transexuais no Brasil 2017 .

Quando não há politicas públicas específicas por parte dos agentes estatais, quando há omissão em relação aos números, quando não há um quadro que busque mudar a expectativa de vida que ainda gira em torno dos 35 anos de idade, o que temos é uma política de extermínio. A essas pessoas não foram dadas oportunidades em relação a sua vida, sequer em relação a sua morte. É quase que um prenuncio a forma como acontecerá.

Por que determinados sujeitos podem viver e morrer dignamente e outros não ? Eis uma boa reflexão para 2018. Fica o convite !

 

 

 

 

O que é um velório ?

No filme Dreamgirls a filha se dirigindo-se a mãe, pergunta:  O que é um velório ?

A partir desse momento parei de prestar atenção no filme para pensar exatamente o que significa um velório e se nos dias atuais ainda faria algum sentido.

Em geral, os velórios são aquelas cerimônias onde um grupo ou grupos de pessoas se reunem para prestar as devidas homenagens a quem morreu. Mais do que isso, é um momento de solidariedade entre familiares e amigos.

É a partir do velório também que algo interno e muito pessoal se transforma entre receber, absorver e assimilar a notícia há um longo percurso que muitas vezes tem seu ápice no encontro com o corpo morto. Quantas vezes custamos a acreditar que alguém morreu ? As vezes somos pegos tão de surpresa que outra realidade se impõe e nos custa acreditar que alguém tenha partido. 

Não me acostumo com a ideia de velórios rápidos que se dão pela urgência em acabar com o cerimonial, como se com ele a dor também fosse passar. Sempre entendi que a morte suspendia todos os outros atos da vida para que pudéssemos viver o luto de maneira adequada. 

Também me estranha quando velórios são fechados  sem que a família e amigos tenham a possibilidade de guardar o seu morto durante a noite pois não há segurança nos cemitérios. Pode parecer pouco, mas há muitos relatos de pessoas que tinham que fechar a sala e voltar no dia seguinte pois o poder público não poderia garantir a segurança de quem estava ali.  

Há famílias em que pessoas foram retiradas e desapareceram e não tiveram a oportunidade de honrar a vida daquele ente. Restou somente uma certidão de óbito dada pelo Estado, sem um corpo. 

O velório é a possibilidade do grupo se preparar para guardar o luto e por quanto tempo, a medida que precisa assimilar o que significa aquela ausência que passará a ser sentida. 

velorio

Imagem: Acervo pessoal

Por que há pressa ? Por que não velar ? Por que imaginar que aquele que deu alegria precisaria desaparecer tão rapidamente ?

Fico pensando em tudo isso e continuo concordando com a resposta dada pela mãe à filha no filme:

Velório, é quando os amigos compartilham o amor por alguém que se foi…

 

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