LAMENTO

Ouçam, crianças:
Seu pai morreu.
De seus velhos paletós
Vou lhes fazer casaquinhos;
E vou lhes fazer calcinhas
Com as suas calças velhas.
Haverá nos seus bolsos
Coisas que punha ali;
Algumas chaves e moedas
Recobertas de tabaco;
As moedas são de Dan,
Para guardar no cofrinho;
Com Anne ficam as chaves,
Para um belo tilintar.
A vida tem que seguir,
E os mortos ser esquecidos;
A vida tem que seguir,
Ainda que morram bons homens;
Anne, venha tomar seu café;
Dan, tome o remédio você;
A vida tem que seguir;
Eu só não lembro porquê.

 

Edna St. Vincent Millay, (1892 -1950)
tradução: Paulo Vizioli

Agradecimento especial ao amigo Luiz Claudio, Finest pela beleza de poema compartilhado.

Poema

(…)
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”

Poema: Ancestralidade

ANCESTRALIDADE 

Ismael Birago Diop*

Ouça no vento
O soluço do arbusto:
É o sopro dos antepassados.
Nossos mortos não partiram.
Estão na densa sombra.
Os mortos não estão sobre a terra.
Estão na árvore que se agita,
Na madeira que geme,
Estão na água que flui,
Na água que dorme,
Estão na cabana, na multidão;
Os mortos não morreram…
Nossos mortos não partiram:
Estão no ventre da mulher
No vagido do bebê
E no tronco que queima.
Os mortos não estão sobre a terra:
Estão no fogo que se apaga,
Nas plantas que choram,
Na rocha que geme,
Estão na casa.
Nossos mortos não morreram.

 

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Fonte da imagem: Ismael

*Senegalês, poeta, contador de histórias, veterinário e diplomata.

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro,

…ano passado eu morri, mas este ano não morro…

Belchior

Carlos Heitor Cony

“Quando a vida é opaca, inútil ou qualquer coisa desse gênero,

a vida fica só na expectativa da morte.

Uma pessoa que morre mas fez alguma coisa de importante,

digamos Fleming, que descobriu a penicilina; Santos Dumont, que voou

(…) e também escritores e poetas, evidentemente Homero, superaram a vida.

E assim todos os grandes autores, poetas e artistas provaram essa verdade.”

Em entrevista ao canal Philos, em 7 de junho de 2016

Fonte : https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/06/Carlos-Heitor-Cony-cronista-incans%C3%A1vel-em-7-cita%C3%A7%C3%B5es-marcantes

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