O sapato e a morte

A morte é um tema sem fim ou sem fundo, sei lá.

É quase impossível que na leitura de um livro, um artigo ou qualquer outro gênero textual eu não me perca em devaneios a respeito dela. Li por ocasião da minha tese (Políticas de Morte para corpos sem lei) muitos autores que trataram dessa questão e, assim como eles, sempre concordei que esse é um tema eminentemente político, sem desconsiderar que também é do campo da psicologia, da filosofia, da economia e assim por diante. Ela se impõe na história dos povos, em todas as sociedades e em qualquer tempo.

Maurice Godelier diz que a morte não se opõe à vida, mas ao nascimento porque ela tem a função de disjuntar aquilo que estava unido e que por um outro instante, num momento de ruptura, dará forma a uma outra forma de vida.

Nelson Rodrigues dizia que é a morte o parâmetro para o amor:

Não há amor se falta o sentimento da morte. É preciso que, olhando o ser amado, cada qual pense: – “Um de nós morrerá primeiro”. Amaremos melhor se pensarmos na morte. Os que não se lembram da morte têm a alma mais árida do que três desertos.

Mas relendo um texto É isto um homem ?  para preparar uma aula foi a seguinte frase que me chamou a atenção “A morte começa pelos sapatos“. Primo Levi ao discorrer a respeito da vida nos campos de concentração revela que são os sapatos os verdeiros instrumentos de tortura, especialmente após horas e horas em marcha, quando revelam feridas que estão sujeitas as infecções que os levarão a morte. Os dicke Fusse – os pés inchados se tornam perigosos.:

 …se perseguido, não consegue fugir; seus pés incham e, quanto mais incham, mais insuportável torna-se o atrito com a madeira e a lona dos sapatos. Então, só resta o hospital, mas entrar no hospital com o diagnóstico  dos pés inchados é sumamente perigoso, ja que todos sabem (e especialmente a SS) que dessa doencça, aqui, não da pra se curar. 

Os sapatos também já foram objeto de um curta metragem Os sapatos de Aristeu que trata da morte de uma travesti que tem sua identidade de gênero negada pela família. O curta metragem revela a possibilidade de várias discussões e entre elas do direito ao nome, ao corpo e a identidade.

Primo Levi ao explicar o que é o campo diz que é o lugar onde tudo é proibido e desse ponto de partida precisamos pensar a respeito das proibições que nos cercam: a sexualidade compulsória, o direito ao lazer nas periferias, a impossibilidade de saneamento, a negativa de direitos básicos e mínimos.

O cuidado necessário é que a morte nos circunda por meio de proibições impostas tacitamente.

 

 

IKU, A MORTE

 

Iku está passando. Tenha calma, não faça movimentos bruscos, siga devagar. Respeito. A morte não aceita acinte. Num susto pode te esbarrar. Cuidado. A morte não erra o dia nem o endereço, mas anda abrupta e num simples toque, por mais leve que seja, te arranca o sopro. Um dia ela cruzará o caminho de todos, mas não se ponha em sua frente. Respeite Iku, respeite a morte.

 

Por: Rodney Willian Eugênio

Às duras penas, eu diria, não teve flores ! 

Ha coisas que me interessam saber dentro de um velório, sobretudo como aquele corpo morto chegou até ali. Em geral, alguns velórios são cheios de flores, choros e velas. Digo alguns, pois no caso de indigentes as condições de inumação são sempre bastante questionáveis, ainda que exista uma legislação que cuide desse fato.

Me parece também que flores, choros e velas compõem o fato de que aquela pessoa falecida formou uma trajetória que fará com que os presentes – amigos e familiares – sintam dolorosamente a perda. É quase um elogio fúnebre (lembremos das lápides em Atenas e os discursos pela honra e coragem dos heróis mortos em batalha),  o pesar por aquele que se foi e aqueles do entorno, por isso as homenagens em flores, choros e velas, mesmo que as sociedades modernas apressem cada vez mais o velório (quando há) e o enterro.

Lembro que quando meu irmão faleceu, vitimado por um incidente, fiquei sabendo após os trâmites burocráticos serem tomados, especialmente pela minha mãe que se adiantou junto a amigos na organização das exéquias, que tudo seria o mais simples possível. Meu pai, chegando de viagem quis comprar um terno, para o qual minha mãe fez clara objeção. Considerou que não teve aquela vestimenta em vida, não caberia na morte. A falta de esforços do meu pai durante toda a vida do meu irmão, revelou que seria um certo excesso a compra do terno. Mamãe também pediu que familiares não comprassem flores. Tudo muito simples, como a vida dele havia sido. Às duras penas, eu diria, não teve flores !

Ontem num velório uma amiga me disse: no meu velório doem o dinheiro das flores. Ou seja restará o choro, já que é muito querida, sem velas já que não é cristã.

Homenagens em velórios são sempre uma forma de reverenciar àquelx que se foi. Há muitas formas, no túmulo de uma amiga querida, deixaram latas de cerveja, a bebida preferida dela.  Nunca pensei ao certo do que gostaria, embora seja possível deixar atestada em vida os desejos pós morte (quem tiver interesse, leia o artigo 1881 do Código Civil Brasileiro), fico pensando que o que tiver pode ser uma representação do que fui.

 

 

 

 

 

Ela, Mazé, que ficou em mim!

Eu sempre fiquei pensando como seria minha vida depois que minha mãe se fosse. Da hora que recebi a ligação em que eu já imaginei o que tinha acontecido, até o momento do velório, muitos amigos e familiares, achavam que eu tinha me embebido de calmantes, chá de cidreira. Na verdade, aquela calma era justamente a minha preocupação em fazer tudo do jeito que ela queria, e agir exatamente como ela agiria. Então, busquei nela a tranquilidade, a mesma tranquilidade que ela tinha quando aconteciam essas situações, inclusive quando perdeu um filho.

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Busquei perceber e seguir com aquilo que ela tinha me ensinado, sem esconder sentimentos, sem deixar de chorar quando era preciso ou de dizer o quanto eu sentia a falta dela.

O que percebi é que fiquei com o melhor dela, o melhor dela permanecia em mim e aquilo foi maravilhoso, pois me ajudou a seguir, a voltar para as atividades, a ver a família e os amigos, a lembrar do quanto ela foi boa com todos e, naquele momento, eu teria que ser também.

Sinto falta todos os dias, mas todos os dias ela está em mim, com o ânimo e a disposição para ir à luta. Pela memória dela.

 

 

Com efeito, a nossa morte é um assunto para os sobreviventes, mais do que para nós mesmos. (...) enquanto existimos, não existe a morte, e quando ela existe, nós já deixamos de existir; por conseguinte, entre nós e a morte, não há nenhuma relação real; é uma coisa que para nós não tem interesse de modo algum e que, quando muito, diz respeito ao Mundo e à Natureza; motivo por que todas as criaturas a contemplam com grande calma, com indiferença, uma irresponsabilidade e inocências egoístas.

 

Thomas Mann

A vida que há na morte

 

É possível tornar a morte mais doce do que o medo ? É com essa pergunta que convido você a ler a matéria por meio do link abaixo.

Por que somos ensinados a temer a morte e não a encará-la de frente. Conheço casos de pessoas que em algum momento da vida começaram a se preparar para a sua passagem. Encaravam de maneira a coroar a sua trajetória tranquilamente e bastante serena. Há muitos relatos e, em alguns deles, a justificativa era a crença religiosa ou mesmo a fé numa passagem tranquila.

Seja pela religião, pela fé ou algum tipo de crença vale a pena pensar a respeito.

Matéria publicada em abril de 2017 mas que continua com a atualidade preservada.

Vale a pena conferir no link A vida que há na morte

 

Os Elefantes

Saí em férias com peso na consciência. Na correria, acabei não escrevendo um texto para este blog.

De qualquer forma pensei que pelo local não seria possível em razão do pouco acesso a rede de internet.

Estou no Kenya, na Reserva de Averdaro, no mesmo hotel onde Elizabeth II entrou princesa e saiu rainha. Um hotel bastante atípico em relação aos que costumo me hospedar quando viajo.

Com a diferença de 6 horas em relação ao Brasil, a noite caiu e estava tranquilamente lendo um dos contos de ‘No pescoço’ da Chimamanda, quando ouço um barulho vindo do lado de fora. Na hora pensei que eram o búfalos que vi durante o dia e passearam o tempo todo pela reserva, mas fui surpreendido. Eram elefantes.

Elefantes são animais instigantes. Chamam atenção pelo tamanho, pela aparente docilidade e pelo fato de serem tão dados a rotina familiar. Andam juntos, comem juntos e morrem juntos.

Alguns acreditam que animais intuem a morte de membros da sua matilha, manada ou bando. Outros desacreditam, como Phillipe Àries e Norbert Elias.

No entanto, há relatos de que elefantes não só pressentem como são capazes de reconhecer membros da sua manada mesmo após anos separados. Li isso em ‘Uma história social do morrer’, do medico Allan Kehellear, que escreveu a respeito.

Fato é que a morte está entre os animais e alguns choram a perda de membros do seu grupo, como alguns tipos de macacos. O que prova que a morte perpassa o entendimento humano e independe dessa condição para que seja sentida, como provam os animais.

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