Parem esse enterro !

Quando recebi a notícia de que uma amiga muito querida havia sido diagnosticada com cancer mobilizei amigos e familiares dela. Era fatal.

Ela tinha plena consciência de tudo o que aconteceria dali por diante e do quanto seria importante a presença de todos.

Os hospitais com a prática do deixe morrer em casa, orientou os cuidados. Faz muitos anos.

Organizamos nossa vida em torno dela e, por mais estranho que pareça, a família se afastou. Não havia cuidado, afeto e nem ajuda financeira que se prolongou por meses, mas os amigos bancaram. Fizemos rifa, organizamos almoços, permanecemos ali.

Chegou a notícia da morte. Como havia um círculo por parte daqueles que ficaram ao lado , imediatamente fomos cuidar das burocracias.

Fizemos o velório que começou as 16h. A família chegou as 18h, em prantos. Pedi que se retirassem.

No dia seguinte o enterro seguiria as 9h, a família começou a chegar às 6h. Não havia choro deles, além da disposição em me olhar torto.

Quando o cortejo começou, familiares se puseram na frente de todos nós. Na metade pedi para parar e disse que havia algo errado. Não considerava certo que a família tendo se afastado durante todo o período da doenca, que não tivesse se disponibilizado se colocasse como os donos da morta.

Parei o cortejo, sentei no caixão é só sai quando foram embora.

Vale a pena pensar a respeito.

A morte solitária

Morte e solidao ou a morte solitaria.

Muitos enfrentam a solidão durante a vida, muitos outros mesmo após a morte.

Não é incomum histórias de pessoas que foram encontradas mortas em suas casas ou apartamentos e os corpos encontrados em razão da situaçao de degradação avançada em que se encontrava.

Descobrimos o falecimento de uma amiga querida em razão de ter faltado ao trabalho. Ela nunca faltava, nunca atrasava e jamais deixava de atender ao telefone. Os colegas preocupados ligaram, ligaram e o tefone não atendia. Resolveram ir ao prédio em que morava e o porteiro e zelador falavam do estranhamento de não a verem durante o final de semana. Chegou do trabalho na sexta, sentou para assistir TV e teve um derrame.

Há outras histórias.

Muitas pessoas morrem sozinhas, sem a solitude, resta a solidão.

A moeda e a morte

A moeda e a morte

Caronte – filho de Nix – é o responsável por receber uma moeda a fim de transportar os recém mortos para as terras de Hades. Em seu barco, atravessa Aqueronte e Estige , rios limitrofes entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, cumprindo assim o seu papel. Sem a moeda não tem travessia e o corpo fica vagando entre os mundos sem destinação final.

Funerais prescindem de moedas.

Na Roma antiga os corpos dos mortos recebiam a honras de acordo com a classe a que pertencia.  Pobres sem muita cerimônia e seus corpos incinerados e ricos com todos os rituais possíveis, corpos banhados com água quente, perfumes e vestes com insignias.

Isso não mudou com o tempo.

Ainda hoje muitos rituais se utilizam da moeda como forma de ajudar a alma possa ser conduzida para seu local ancestral.

Mas é preciso lembrar que moedas não tem importância só simbólica, mística ou religiosa. Os rituais, como já disse aqui servem para amenizar a dor do entorno e criar uma consciência a respeito da morte.

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Imagem: O inferno de Dante

Atualmente, as moedas convertidas em notas, cheques e cartões de crédito são um meio de, assim como os romanos, dar ao ente uma destinação ao corpo morto. Há enterro sem dinheiro ? Na cidade de São Paulo,  segundo a tabela de serviços funerários, há.  Pelo que determina a Lei 11 083/91  a gratuidade é um direito de todos os cidadãos, embora exista a alegação de que a comprovação de baixa renda não precise ser comprovada, ao invocar essa lei a família ou responsáveis pela declaração devem saber que não poderão fazer uso de sala de velório por mais de 15 minutos, além do material utilizado no caixão ser de baixíssima resistência. Há também a dispensa de pagamento de taxas, caso o falecido seja doador de órgãos para fins de transplante médico Lei municipal 11.479.

De qualquer forma, vale destacar que os serviços tabelados variam entre $ 440,37 (inumação de membros amputados) até $ 20.916,47 (para o serviço mais luxuoso). Para extra grandes os preços tem acréscimo.

 

Para morrer na cidade de São Paulo é preciso muitas moedas. É um longo caminho com um cofrinho bem cheio. É burocrático, é dolorido.

A consciência sobre a morte

Platão,  República, Livro X, 614b-621c, nos conta sobre o Mito de Er. Um famoso guerreiro que após morrer em combate retornou do mundo dos mortos, após ser velado por 12 dias.  Ao ressuscitar, o combatente narra todos os acontecimentos do Hades e a forma como a alma de cada um era encaminhada segundo os feitos em vida. Vale lembrar que segundo esse mito, as almas ao serem encaminhas à uma nova vida tomavam a água do esquecimento no Rio Alete, a fim de que não reproduzissem os acontecimentos, como fez Er.

Norbet Elias, em A Solidão dos Moribundos, diz que a nossa percepção a respeito da morte e do morrer é sempre a partir do outro. O outro morre, nós não.

Alguns autores divergem sobre a consciência do morrer, destacando que somente os homens são capazes de tal percepção. Kellehear em seu livro Uma história social do  morrer nos alerta que os animais também possuem tal percepção dando como exemplo os macacos-vervet que ao perceberem a presença de uma cobra e a consequência fatal de uma picada começam a gritar incessantemente com o intuito de alertar todos os outros macacos. Diz que os elefantes são capazes de reconhecer membros da sua manada por meio de esqueletos.

É na Idade da Pedra que o homem inaugura uma característica a respeito do morrer humano em que estabelece uma existência adicional além da biológica de forma a poder imaginar outras formas de morrer.

Há sempre relatos de experiências místicas sobre a previsão da própria morte. Uma intuição, um aviso, uma sensação. De toda sorte, o ser humano é capaz de optar por racionalizar a respeito ou não, buscando um entendimento do que a morte pode significar e quais os impactos que pode causar.

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Foto: Arquivo pessoal

É quase inegável que ao tomar consciência da morte o ser humano recorra a verificação da sua trajetória e a entrada numa jornada interpessoal onde revisa valores, seus sistemas de crenças, a análise da vida e a relação com outro.

 

 

 

 

 

 

Não há amor se falta o sentimento da morte. É preciso que, olhando o ser amado, cada qual pense: – “Um de nós morrerá primeiro”. Amaremos melhor se pensarmos na morte. Os que não se lembram da morte têm a alma mais árida do que três desertos.

Nelson Rodrigues

ossadas

Fonte: Página do Facebook Pessimismo Filosófico

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