Carta para meu irmão

Carlinhos,

Me lembro sempre de como todos sempre te chamavam, mesmo que tenha crescido era sempre o Carlinhos para nós todos.

Um amigo querido tem um livro chamado “Cartas Extraordinárias” ( resenha )escritas por personagens notáveis da história do mundo. Li com atenção a carta de Dostoiévski ao seu irmão Mikhail em que relatava sua situação ante a uma pena execução e a sua reversão. É uma carta linda.

Nunca te escrevi uma carta, nem uma mensagem, quase não deu tempo de dizer ‘adeus’. Acordei essa madrugada pensando que poderia fazer isso e, sem conseguir conter meus pensamentos, lembrei de muitos dos nossos momentos. Do seu instrumento musical preferido, o Tantan, do grupo A toca do Coelho e do Zeca Pagodinho que surgia no mundo do samba, do quanto queria roupas lindas e de como gostava de se vestir bem. Lembro da sua maior paixão, aquela que arrebatou seu coração.

Nem tudo foi tão bem depois de um determinado momento das nossas vidas, as vidas nas periferias continuam sendo ceifadas pela violência das drogas. Sempre brigamos muito, mas lembro que nada foi mais importante do que nossa última conversa. Foi uma felicidade voltar ao trabalho depois daquele almoço depois de você passar a semana insistindo para que acontecesse, eu precisava te falar isso. Olhando para trás, foi o mesmo que ouvir você dizer: “está tudo bem, estou livre, sinto-me livre”. Era uma despedida ? Você se adiantou ? 18 anos foi pouco tempo para você.

Lamento minha imaturidade para lidar com as suas dificuldades. Eu que parecia tão crescido, fui pequeno por pura incompreensão do que acontecia em nossas vidas ou era a inexperiência da idade? Não soube identificar um pedido de socorro.

Os anos passaram e eu fui ficando. Mamãe, tenho comigo, precisava ir te ver. Ela precisava saber como você estava nesse novo lugar e esperou que as coisas se ajeitassem um pouco mais por aqui e resolveu partir. Sinto sua falta e não são raras as vezes em que acordo e te pergunto: você poderia estar aqui, né ?

carlinhos e eu

Não falarei sobre o nosso pai. Não tenho o que falar sobre ele.

As coisas estão mais modernas nos meios de comunicação, até onde minha memória alcança cartas começavam com a pergunta sobre como se encontra o destinatário e o desejo sincero de que todos estejam bem.  Queria escrever mais, não consigo dominado pelas lembranças.

Desejo que tudo esteja tranquilo por aí, com você e com os nossos.  Te amo!

“Cartas Extraordinárias” – A carta encontra-se publicada no Blog Russianshow

Deus morto

Deus morto

Edin Sued Abumanssur *

Desde criança aprendi que nós, os protestantes, não gostamos da imagem do crucifixo. Nossa ênfase era na cruz vazia e mais, no túmulo vazio. Cremos no Deus ressuscitado. Precisei ficar velho para entender e começar a gostar da cruz com aquele homem crucificado. A imagem é cruel e violenta, mas o sentido daquela imagem é pior. E eu gosto.

Gosto, mas não pela violência explícita e sim por aquilo que ela afirma: abandono, solidão, desilusão. “Deus meu, Deus meu… por que me abandonaste?”. Gosto porque me identifico com esse abandono, esse desamparo, essa solidão. Olhando para o crucifixo penso que, talvez, o cristianismo seja a única religião que afirma crer em um Deus morto. E gosto disso.

A cena que crio em minha mente sobre o episódio da paixão é de uma multidão em festa em Jerusalém, alegre e cheia de vida. O povo dançando e cantando nas ruas, dias iluminados e felizes. No entanto, a mesma multidão que o recebeu eufórica e esperançosa cantando “hosanas ao Filho de Davi”, poucos dias depois, prefere a Barrabáz aos gritos de “crucifica-o, crucifica-o”. Os soldados levantam a cruz com o salvador pregado nela e o povo, aos poucos, vai voltando para suas casas, suas rotinas e suas misérias. Ao final, restam ali, no Calvário, umas poucas mulheres abraçadas, chorando baixinho, buscando um consolo que não vem de nenhum lugar.

O desalento, a frustração, o medo, a incerteza, de alguma forma fazem parte do cristianismo e estão no centro da fé cristã. O salvador está morto, o Messias falhou, Deus nos abandonou, não há a quem recorrer.

Crer sem razão para crer, esperar contra toda esperança. Deus morreu, viva Deus!

 

 

* Professor vinculado ao Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

Matheusa

 

Matheusa, como se identificava, está morta. Era não-binária, não escondeu nas redes sociais, como se verifica na matéria publicada pelo G1 a sua condição de vulnerabilidade financeira e por isso pediu ajuda.

Matheusa, como se identificava, está morta. Saiu de uma festa e seguiu até o Morro do 18 para ser morta. Foi julgada pelos traficantes do local, conforme nos diz a delegada.

Matheusa, como se identificava, está morta. Mas também já havia sido julgada por todos nós que permitimos que chegasse aos 35 anos, tempo médio de vida de pessoas transgêneros no Brasil.

O corpo é mídia primária, é ele quem nos codifica e informa à sociedade quem somos. Mais do indivíduos, sujeitos, coletivos, somos conceitos. A informação de que Matheusa foi morta e, possivelmente, queimada é a mostra de que conceitos no Brasil ainda não permitem que corpos trans vivam em sua dignidade. Pior, esse corpo além de não poder viver, também não pode existir – dá-se um nome, tira-se uma vida, queima-se o corpo.

Inexiste, porque o corpo tornou-se o nada.

 

(Imagem: Carta Capital)

 

 

 

 

 

44

Por volta de 1h30′ da madrugada ouviu-se um grande barulho. Era no chamado Edifício Wilton Paes de Almeida o estrondo que supostamente vinha do 5º andar, no centro de São Paulo e tirava seus moradores das suas camas. A tragédia ocorrida no dia 1º de maio tomou conta do noticiário e das redes sociais.

Daqueles que ficaram expostos durante todo o dia no Largo do Paissandu pela oportunidade de terem conseguido sair ilesos das ruínas (se é que alguém saiu ileso), até aqueles que nas seguranças dos seus lares se marcavam como seguros o que se confirma é um total despreparo das autoridades públicas para a solução da moradia no país.

Foram relatos e entrevistas durante todo o dia de urbanistas, juristas, políticos e alguns moradores. A repórter até pediu foco na criança que bebia água, como se esse fosse um fato novo – os ocupantes bebem água, atentem !!!!

Mas e os mortos ?

Outras notícias dão conta de que há até o momento 44 desaparecidos com base na lista apresentada pela assistência social da Prefeitura de São Paulo, podemos ver a notícia em Bombeiros buscam desaparecidos . Não se sabe ao certo se estavam no local do evento ou se estavam fora de suas casas, afinal era feriado.

Me estranha, no entanto, o fato de que nenhuma lista tenha sido divulgada com maior amplitude e com nomes dos moradores. Se há um registro, há nomes.  Não há destaque para essa informação. Sabemos sobre as condições do prédio, sobre a força tarefa, sobre a desigualdade que assola o país, sobre as condições indignas de segurança no local, mas não sabemos dos desaparecidos ou mortos são travestis que moravam no local, se são  refugiados ou migrantes. Não há  nomes, não há rostos !

Na morte há desigualdade quando não se permite que nossos mortes tenham nomes e tenham rostos. Não sem razão, Butler, em Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto?,  nos explica da impossibilidade do luto para o corpo morto, quando não há vida vivida naquele que se foi “Sem a condição de ser enlutada, não há vida, ou, melhor dizendo, há algo que está vivo, mas que é diferente de uma vida”.

A invisibilidade perpetuada nas normas existentes que já não permitiram que essas vidas fossem reconhecidas, em suas condições mínimas, afinal, se as pessoas não morreram na tragédia, a tragédia das condições já as matou. Por que então teríamos um nomes nessa lista ?

 

 

 

Com efeito, a nossa morte é um assunto para os sobreviventes, mais do que para nós mesmos. (...) enquanto existimos, não existe a morte, e quando ela existe, nós já deixamos de existir; por conseguinte, entre nós e a morte, não há nenhuma relação real; é uma coisa que para nós não tem interesse de modo algum e que, quando muito, diz respeito ao Mundo e à Natureza; motivo por que todas as criaturas a contemplam com grande calma, com indiferença, uma irresponsabilidade e inocências egoístas.

 

Thomas Mann

Nossos Mortos

Em Nossos Mortos, novo trabalho do Teatro Máquina, o grupo trata de dar forma à tragicidade exposta no mito de Antígona, a partir de Sófocles, enfatizando a defesa do direito natural de sepultamento. Aprofundando relações com outras versões do mito nas traduções e releituras dos dramaturgos Friedrich Hölderlin, Bertolt Brecht, José Watanabe e Ângela Linhares, o Teatro Máquina aprofunda também sua investigação sobre as sonoridades fúnebres tradicionais e os documentos históricos de inúmeros massacres e movimentos populares, especialmente o do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, na cidade do Crato (CE).

O processo teve início durante uma viagem de 28 dias por três regiões do semiárido nordestino, em 2015, no projeto Sete Estrelas Grande Carro, contemplado pelo Rumos Itaú Cultural. Em 2017, o grupo retoma a investigação sob tutoria da atriz e diretora Tânia Farias, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, além dos colaboradores de música e voz: Ayrton Pessoa, Di Freitas e Consiglia Latorre, no Laboratório de Pesquisa Teatral da Escola Porto Iracema das Artes.

Serviço:
NOSSOS MORTOS
Temporada de estreia
06, 07, 08, 13, 14 e 15 de abril de 2018
sextas e sábados às 21 horas, domingos às 18 horas
no Teatro do SESC Pompeia
Duração: 70min
Indicação etária: 16 anos
Compra de ingressos:
https://www.sescsp.org.br/programacao/150675_NOSSOS+MORTOS
*Vendas limitadas a 4 ingressos por pessoa.

Ficha Técnica:
Com Ana Luiza Rios e Loreta Dialla
Direção: Fran Teixeira
Produção: Teatro Máquina
Fragmentos de textos de Angela Linhares, José Watanabe, Bertolt Brecht, Friedrich Hölderlin e Sófocles.
Tutoria: Tânia Farias
Direção Musical: Ayrton Pessoa Bob e Consiglia Latorre
Preparação musical: Consiglia Latorre
Acompanhamento musical e rabeca de cabaça: Di Freitas
Música e som ao vivo: Ayrton Pessoa Bob e Levy Mota
Preparação corporal: Fabiano Veríssimo e Márcio Medeiros
Figurino: Diogo Costa
Cenografia: Frederico Teixeira
Assistência de cenografia: Marina de Botas
Desenho de luz: Walter Façanha

Durante os dias 10, 11 e 12 de Abril, o grupo oferece também junto com Consiglia Latorre, diretora musical do trabalho, a oficina Bases improvisacionais para o corpo e a voz no espaço de criação.
Mais informações sobre a oficina e como se inscrever aqui: SESC

Poema: Ancestralidade

ANCESTRALIDADE 

Ismael Birago Diop*

Ouça no vento
O soluço do arbusto:
É o sopro dos antepassados.
Nossos mortos não partiram.
Estão na densa sombra.
Os mortos não estão sobre a terra.
Estão na árvore que se agita,
Na madeira que geme,
Estão na água que flui,
Na água que dorme,
Estão na cabana, na multidão;
Os mortos não morreram…
Nossos mortos não partiram:
Estão no ventre da mulher
No vagido do bebê
E no tronco que queima.
Os mortos não estão sobre a terra:
Estão no fogo que se apaga,
Nas plantas que choram,
Na rocha que geme,
Estão na casa.
Nossos mortos não morreram.

 

ismael.png

Fonte da imagem: Ismael

*Senegalês, poeta, contador de histórias, veterinário e diplomata.

Nossos mortos têm voz

“Nossos Mortos Têm Voz”: pré-estreia de documentário

Acontece em 27 de março, no Odeon, Rio de Janeiro, a pré estreia do documentário “Nossos Mortos Têm Voz,” 13 anos após a maior chacina da Baixada Fluminense. No dia 31 de março de 2005, policiais do Estado do Rio de Janeiro assassinaram 29 pessoas em Nova Iguaçu e Queimados. O documentário traz à tona o depoimento de mães e familiares de vítimas da violência do Estado na Baixada Fluminense com as histórias atravessadas por essas perdas. O filme conta com o apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil, Misereor, Casa Fluminense, Fundo Brasil de Direitos Humanos e a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.

 

Mais informações em: Nossos mortos tem voz

Seminário: Necropolítica – Políticas de Morte

Organizei junto com outras pessoas queridas um Seminário no Centro de Pesquisa e Formação do SESC sobre um tema hoje, mais do que nunca, latente em nossa sociedade.

O Seminário tem por objetivo propor a discussão em torno do que chamamos de políticas da morte que ocorrem sob a tutela do estado. Se por um lado nos cabe discutir essas questões sob a ótica do conceito e da perpetuação de uma prática macro que ocorre no cotidiano das nossas cidades, por outro cabe destacar quais são os sujeitos que têm sido sistematicamente atingidos por essa política – lgbts, mulheres, população negra e indígenas.

Organizações não-governamentais, movimentos sociais, coletivos, associações e outros organismos tem sido enfáticos às denúncias a respeito das constantes violações investidas contra esses sujeitos.  Invisibilizados, subalternizados, estigmatizados, esses grupos são destacados de maneira semelhante ao quadro apresentado pela pensadora estadunidense Judith Butler como vidas precárias.

O intelectual camaronês Achille Mbembe, a partir da proposta teórica de M. Foucault em que destaca o exercício do poder estatal sobre corpos e vidas, têm afirmado, ao se afastar das formas tradicionais de definição do termo, que a questão da Soberania do estado é ampla e largamente utilizada não só para apresentar e retratar o poder estatal em relação as questões limítrofes sócio-espaciais, mas também para falar da disposição do estado em se utilizar desse poder para decidir sobre “quem deve viver e quem deve morrer”.

Assim, utiliza-se do conceito de Necropolítica para retratar a atuação do estado e, por consequência, quais dentre os seus sujeitos e grupos irão viver e morrer.

A programação e as informações estão em: Seminário Necropolítica

 

Blog no WordPress.com.

Acima ↑