A vida que há na morte

 

É possível tornar a morte mais doce do que o medo ? É com essa pergunta que convido você a ler a matéria por meio do link abaixo.

Por que somos ensinados a temer a morte e não a encará-la de frente. Conheço casos de pessoas que em algum momento da vida começaram a se preparar para a sua passagem. Encaravam de maneira a coroar a sua trajetória tranquilamente e bastante serena. Há muitos relatos e, em alguns deles, a justificativa era a crença religiosa ou mesmo a fé numa passagem tranquila.

Seja pela religião, pela fé ou algum tipo de crença vale a pena pensar a respeito.

Matéria publicada em abril de 2017 mas que continua com a atualidade preservada.

Vale a pena conferir no link A vida que há na morte

 

E se Tânatos, irmão do sono, nos visitasse amanhã? 

O filósofo alemão Heidegger dizia que a morte é o que nos transforma em humanos. Se aceitamos isso, segundo o filósofo nossa existência se torna autêntica, pois aceitamos os fatos como são sem criar subterfúgios.

Começamos a morrer desde o momento em que nascemos, é nessa perspectiva que vamos nos criando com o intuito de completar todas as nossas fases da vida – da infância à juventude, da juventude à vida adulta, da vida adulta à velhice. Não se trata de previsão sobre o futuro, a morte é certa.

A morte nos deixa desconfortáveis e agimos muitas vezes como se ela não existisse. Os outros morrem, eu não ! é quase uma sentença que criamos para entender a nossa vida como um processo infinito, mas reconhecendo que o outro irá partir.
Todos sabemos que estamos destinados a morrer, mas muitas vezes agimos em razão da inexistência de uma temporalidade, como se tivéssemos tanto tempo ad eternum que não fosse preciso pensar sobre esse tema.
O medo da morte nos faz criar mitos. São eles que nos ajudam a vencer o medo, a entender nossas fraquezas, a construir histórias que muitas vezes irão criar pontes para entendermos e continuarmos a nossa trajetória. São os mitos que justamente nos fazem muitas vezes driblar o tema da morte e nos permite estabelecer planos para a nossa vida.  É o futuro que nos interessa, mesmo que não se tenha a certeza de que esses planos irão se concretizar ou não.

Não vamos esquecer que tudo isso é uma forma de negar o fato de que a finitude da vida chega. Negamos a morte e nos recusamos a falar dela como fator social. O que nos incomoda ? A morte ou o agir como se ela não existisse?  Falamos da morte por eufemismos “fulano está partindo”ou “estou indo embora” quando deveríamos admitir que “fulano está morrendo” ou “eu estou morrendo” e celebrar a morte como em tantas culturas. Os Vikings não temiam a morte pois era uma honra morrer em batalha, provar a honra e a bravura, e ser recebido no salão de Valhalla.

A verdade é que da forma como pensamos a vida tendemos a pensar que sempre se é muito jovem para morrer. Sempre se é muito cedo para morrer, mas deveríamos pensar:
E se Tânatos, irmão do sono, nos visitasse amanhã?

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro,

…ano passado eu morri, mas este ano não morro…

Belchior

Éramos oito

Por Daniel Pereira 

A morte é corriqueira na periferia das grandes metrópoles. O Estado negligente, propicia que famílias sejam destroçadas das formas mais violentas possíveis.

Sueli, mulher negra, criada pela vida, como muitas outras jovens do seu tempo foi mãe muito cedo. Aos 17 anos dera à luz a Roberto, seu primogênito. Depois, vieram os demais filhos, Bronze, Claudia, Daniel, Anderson, Wellington e a temporã, Natalia. Cresciam na favela vigiados pelos vizinhos enquanto a mãe saía em busca do sustento.

Ninguém jamais podia imaginar o que estava reservado àquela família. Tendo início no ano de 1990, o Bronze foi assassinado por ter sido confundido pelos traficantes de outra favela onde foi se refugiar. Em 1.993, Roberto foi morto à balas por ciúme do ex-marido da mulher com quem estava se envolvendo. Mesmo acostumada à luta e ao sofrimento impostos pela vida, Sueli vira seu coração dilacerado pela violência. Nenhuma mãe deveria enterrar seus filhos!

O ano era 1997. Após Sueli discutir com um rapaz que estava brigando com seu sobrinho por conta de crack, sob o efeito das drogas ele voltou até seu apartamento, pediu para lhe dar um abraço e covardemente a agarrou pelo pescoço, desferindo um certeiro tiro no meio da testa. Causa mortis: choque séptico; agente perfuro contundente.

Ela se foi e deixou órfãos cinco filhos, sendo apenas uma maior de idade; os demais variavam entre 17 e 2 anos de idade, além de sobrinhos que criava e seu neto. Daniel lidava com a perda da mãe se trancando no quarto onde ela dormia e, não era raro, retomar à consciência chorando sobre o túmulo da progenitora. Os demais não conseguiram se livrar das garras do vício e se entregaram às drogas. Quem poderia julgá-los?

Os que ficaram, não sabiam que Iku (a personificação da morte para o povo ioruba) ainda não havia se resolvido com eles. Em 2001, Wellington, o irmão caçula, pegou uma carona maldita com amigos e o carro em que estava foi alvejado por motoqueiros encapuzados. Dos cinco ocupantes do veículo, só ele foi atingido e morreu. Pobre infeliz. No ano de 2001,após separar uma briga do primo no baile em que estava, Anderson, ao sair do salão acompanhado por uma garota, foi seguido pelos seus assassinos. Ao virar a esquina, chamaram seu nome e ao se virar, fora atingido por tiros que tiraram a vida do casal. Detalhe: dos homens, nenhum chegou aos 30 anos de idade.

Restaram duas mulheres, sendo que Claudia já havia perdido a dignidade por conta do uso de drogas, Natalia e Daniel. Em 2010, cansado de enterrar seus familiares mortos de forma violenta, um alívio: ao retornar para casa após mais uma noite fazendo uso de drogas e álcool, Claudia foi encontrada morta sobre a cama que dormia. Infarto fulminante.

Como será que fica o emocional de alguém que fora exposto à esta sorte de violência? Perder a família toda de maneira trágica é ou não uma brincadeira da morte? Por fim, dos sete filhos de Sueli, apenas dois se livraram das artimanhas da morte? Até que não consigam mais enganá-la, vida se que segue…

Os Elefantes

Saí em férias com peso na consciência. Na correria, acabei não escrevendo um texto para este blog.

De qualquer forma pensei que pelo local não seria possível em razão do pouco acesso a rede de internet.

Estou no Kenya, na Reserva de Averdaro, no mesmo hotel onde Elizabeth II entrou princesa e saiu rainha. Um hotel bastante atípico em relação aos que costumo me hospedar quando viajo.

Com a diferença de 6 horas em relação ao Brasil, a noite caiu e estava tranquilamente lendo um dos contos de ‘No pescoço’ da Chimamanda, quando ouço um barulho vindo do lado de fora. Na hora pensei que eram o búfalos que vi durante o dia e passearam o tempo todo pela reserva, mas fui surpreendido. Eram elefantes.

Elefantes são animais instigantes. Chamam atenção pelo tamanho, pela aparente docilidade e pelo fato de serem tão dados a rotina familiar. Andam juntos, comem juntos e morrem juntos.

Alguns acreditam que animais intuem a morte de membros da sua matilha, manada ou bando. Outros desacreditam, como Phillipe Àries e Norbert Elias.

No entanto, há relatos de que elefantes não só pressentem como são capazes de reconhecer membros da sua manada mesmo após anos separados. Li isso em ‘Uma história social do morrer’, do medico Allan Kehellear, que escreveu a respeito.

Fato é que a morte está entre os animais e alguns choram a perda de membros do seu grupo, como alguns tipos de macacos. O que prova que a morte perpassa o entendimento humano e independe dessa condição para que seja sentida, como provam os animais.

Carlos Heitor Cony

“Quando a vida é opaca, inútil ou qualquer coisa desse gênero,

a vida fica só na expectativa da morte.

Uma pessoa que morre mas fez alguma coisa de importante,

digamos Fleming, que descobriu a penicilina; Santos Dumont, que voou

(…) e também escritores e poetas, evidentemente Homero, superaram a vida.

E assim todos os grandes autores, poetas e artistas provaram essa verdade.”

Em entrevista ao canal Philos, em 7 de junho de 2016

Fonte : https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/06/Carlos-Heitor-Cony-cronista-incans%C3%A1vel-em-7-cita%C3%A7%C3%B5es-marcantes

Um convite !

A morte não é uma questão pessoal ou apenas familiar, é antes de tudo uma questão social.

Quando digo isto me refiro ao fato de que há uma intervenção direta por parte do Estado na forma como entende e contribui na forma de morrer de alguns sujeitos. Isso se reflete por meio de mecanismos que favorecem desejos individuais de determinados grupos. A disponibilização de testamento vital, a escolha de rituais fúnebres para cristãos, a disponibilização de sepultura, por exemplo, são algumas das formas.

A participação do Estado se dá também quando ele se omite diante da forma como determinados sujeitos morrem. A participação por omissão.

Vejam, que dignidade há em morrer de maneira brutal ? Nenhuma , você que está lendo deve concordar com isso. Então porque travestis e transexuais continuam sendo sistematicamente alvo de mortes brutais, sem que o Estado consiga mudar os parâmetros atuais ?

Em 2016 de toda comunidade LGBT que foi morta, 40% eram de pessoas travestis e transexuais. Vejamos 2016 em números:

– 343 lgbt assassinados (173 gays, 144 trans, 10 lésbicas, 4 bissexuais)
– uma morte a cada 25 horas
– 31% com armas de fogo
– 27% com armas brancas
– no Brasil se mata mais do nos 13 países do Oriente e e Africa que possuem pena de morte
Dados do Grupo Gay da Bahia.

Em 2017, esse número saltou de 40% para a marca de 45%, num total de 179 mortes. As mortes são sempre cometidas com requintes de crueldade – faca, tiro, espancamento, mutilação. Esses números podem ser analisados meio do Dados sobre mortes de travestis e transexuais no Brasil 2017 .

Quando não há politicas públicas específicas por parte dos agentes estatais, quando há omissão em relação aos números, quando não há um quadro que busque mudar a expectativa de vida que ainda gira em torno dos 35 anos de idade, o que temos é uma política de extermínio. A essas pessoas não foram dadas oportunidades em relação a sua vida, sequer em relação a sua morte. É quase que um prenuncio a forma como acontecerá.

Por que determinados sujeitos podem viver e morrer dignamente e outros não ? Eis uma boa reflexão para 2018. Fica o convite !

 

 

 

 

Parem esse enterro !

Quando recebi a notícia de que uma amiga muito querida havia sido diagnosticada com cancer mobilizei amigos e familiares dela. Era fatal.

Ela tinha plena consciência de tudo o que aconteceria dali por diante e do quanto seria importante a presença de todos.

Os hospitais com a prática do deixe morrer em casa, orientou os cuidados. Faz muitos anos.

Organizamos nossa vida em torno dela e, por mais estranho que pareça, a família se afastou. Não havia cuidado, afeto e nem ajuda financeira que se prolongou por meses, mas os amigos bancaram. Fizemos rifa, organizamos almoços, permanecemos ali.

Chegou a notícia da morte. Como havia um círculo por parte daqueles que ficaram ao lado , imediatamente fomos cuidar das burocracias.

Fizemos o velório que começou as 16h. A família chegou as 18h, em prantos. Pedi que se retirassem.

No dia seguinte o enterro seguiria as 9h, a família começou a chegar às 6h. Não havia choro deles, além da disposição em me olhar torto.

Quando o cortejo começou, familiares se puseram na frente de todos nós. Na metade pedi para parar e disse que havia algo errado. Não considerava certo que a família tendo se afastado durante todo o período da doenca, que não tivesse se disponibilizado se colocasse como os donos da morta.

Parei o cortejo, sentei no caixão é só sai quando foram embora.

Vale a pena pensar a respeito.

Necrópsia da vida

Necrópsia da vida

Por Luciana Cerqueira

para a mulher  que ensinou-me

as coisas simples: Joelma

 

Nós somos enigmáticos porque somos poéticos diz a escritora. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Ela em sua primeira gravidez viu crescer imensamente seu corpo de mulher que baila, bailou e voou e borboleteou sua mocidade e depois da longa espera viu seu menino amado esperado bater as asas.

Os laços entre ela e o amado desfizeram-se no líquido amniótico. E descobriu-se prenhe da poesia, do artesanato, do belo, enfim veio uma menina que desde sempre mostrou seus olhos de paixão e mulher, observando menina, brincando de arte e literatura. De gato e desenho.

Mas, mas… Mas aquele homem estava tomado pela cegueira branca que o escritor tanto ensaiou e Julianne Moore conversou com as gentes na sala escura mostrando-nos que é preciso observar.

E eu retorno para as primeiras linhas dessas histórias tecidas e entretecidas, nossas primeiras indagações como quem olha o transcorrer do dia e a vida dentro dos transportes públicos e rememora os contos da vida: nós somos enigmáticos porque somos poéticos como nos disse a escritora anteriormente. Somos poéticos por que somos enigmáticos?

Somos formados de poesia biológica: nossa carne. Poeira de estrelas. Uma luz que vagueia nas águas do mar, na ressaca e no seu brilho ao sol. Somos a vida e o milagre. A pintura e a organização da mulher: somos.

Somos os nossos ossos em nossa pele e tomados de paixão.  Voltando a ela, tornou-se mãe e foi tomada de tanto amor, uma lucidez do viver e ao mesmo tempo a insanidade das compras rica-pobres nas lojas de R$ 1,00, nos bazares, nos sebos e em tudo que se podia economizar enquanto via que o mundo enlouquecia cada minuto mais e foi criando a filha e a menina crescendo em sonhos, no recato e na selvageria que é o crescer de uma mulher com luz e carisma.

Depois de tudo aprender nos finos tratos de mulher: manicure, pedicure, bordar, pintar em tecido, crochetar, tricotar, cozinhar, não, não a fina cozinha dos aromas todos que se pede uma beleza cozer com ervas e especiarias, mas aquela do pão de cada dia.

O pão de cada dia feito às madrugadas e comido em vários amanheceres com os irmãos e o pai – com quem aprendeu a dançar, acordar e dormir cedo e amar a terra – e com a filha seu maior carinho e diálogo.    Depois de tanta vida, tanto aprender, tanto fazer e desfazer malas, mobiliar casas, decorá-las e enfeitá-las, e lá foi ela encontrar a ceifadora de todas as horas e tempos dizendo: quero ser auxiliar de necrópsia.

Viu, observou, olhou tanta vida entre as entranhas de mulheres violentadas. Tantas dores ela pôde perceber que naqueles corpos ao realizar as necrópsias e, também, nos marejados olhos dos familiares desses mortas mulheres. Ela encarou de frente tantos corpos nus e despidos da vida que submergiu a vida e emergiu voltando a amar a viver, decorar a nova casa, pintar as unhas e tecer novamente outras histórias e histórias…

Mas essa, essa é ela…

 

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