Ironia da liberdade

Ironia da liberdade

Disseram a José, quando este nasceu, que a vida lhe cobraria alguns centavos a gosto. José, nascido no terceiro dia do segundo mês, pensou que a cobrança seria feita em trabalho. A gosto de quê? A troco do puro gosto? José, assim que nascido, só não fora trabalhar porque um tal de Girino lhe dissera: vem cá, tem de esperar! Mas José, estando nascido lá no sertão dos Corais, não sabia que o valor seria tão alto quanto lhe queriam creditar.

Nasceu, cresceu, e perguntara: o que faço ainda eu por tanto trabalhar? Já pagara os alguns centavos a gosto que me disseram: “haverá a vida de cobrar”? José, já falecido, coitado, fora marido, pai e avô. Mas sempre devedor desses centavos que o mundo não cessara: cobrara-lhe por pura dor.

Victhor Fabiano, da coletânea Guerra da Minha Ruavicthor

Carlos Heitor Cony

“Quando a vida é opaca, inútil ou qualquer coisa desse gênero,

a vida fica só na expectativa da morte.

Uma pessoa que morre mas fez alguma coisa de importante,

digamos Fleming, que descobriu a penicilina; Santos Dumont, que voou

(…) e também escritores e poetas, evidentemente Homero, superaram a vida.

E assim todos os grandes autores, poetas e artistas provaram essa verdade.”

Em entrevista ao canal Philos, em 7 de junho de 2016

Fonte : https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/06/Carlos-Heitor-Cony-cronista-incans%C3%A1vel-em-7-cita%C3%A7%C3%B5es-marcantes

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