Deus morto

Deus morto

Edin Sued Abumanssur *

Desde criança aprendi que nós, os protestantes, não gostamos da imagem do crucifixo. Nossa ênfase era na cruz vazia e mais, no túmulo vazio. Cremos no Deus ressuscitado. Precisei ficar velho para entender e começar a gostar da cruz com aquele homem crucificado. A imagem é cruel e violenta, mas o sentido daquela imagem é pior. E eu gosto.

Gosto, mas não pela violência explícita e sim por aquilo que ela afirma: abandono, solidão, desilusão. “Deus meu, Deus meu… por que me abandonaste?”. Gosto porque me identifico com esse abandono, esse desamparo, essa solidão. Olhando para o crucifixo penso que, talvez, o cristianismo seja a única religião que afirma crer em um Deus morto. E gosto disso.

A cena que crio em minha mente sobre o episódio da paixão é de uma multidão em festa em Jerusalém, alegre e cheia de vida. O povo dançando e cantando nas ruas, dias iluminados e felizes. No entanto, a mesma multidão que o recebeu eufórica e esperançosa cantando “hosanas ao Filho de Davi”, poucos dias depois, prefere a Barrabáz aos gritos de “crucifica-o, crucifica-o”. Os soldados levantam a cruz com o salvador pregado nela e o povo, aos poucos, vai voltando para suas casas, suas rotinas e suas misérias. Ao final, restam ali, no Calvário, umas poucas mulheres abraçadas, chorando baixinho, buscando um consolo que não vem de nenhum lugar.

O desalento, a frustração, o medo, a incerteza, de alguma forma fazem parte do cristianismo e estão no centro da fé cristã. O salvador está morto, o Messias falhou, Deus nos abandonou, não há a quem recorrer.

Crer sem razão para crer, esperar contra toda esperança. Deus morreu, viva Deus!

 

 

* Professor vinculado ao Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

Onde estão nossos mortos ?

Imagem: Instituto Forense da Unesp, arquivo pessoal.

Onde estão nossos mortos ? (Por Fábio Mariano)

Muitos dos leitores conhecem a tragédia Antígona que compõe a terceira parte da trilogia de Tebas de Sófocles e que marca o confronto entre Antígona e Creonte. Antígona, a irmã, invoca o direito de enterrar Polinice – o irmão, morto em batalha, enquanto Creonte, o Rei, contrariando a um direito natural edita uma lei que proíbe a inumação, por considerar que o morto havia desonrado a cidade de Tebas.

Da leitura de toda tragédia que renderia muitas e muitas interpretações, resta claro que não se trata somente de uma disputa familiar, nem da discussão a respeito da interposição de um direito positivo sobre um direito natural, é tudo isso aliada a uma questão que sempre me parece fundamental de discutir – a dignidade do corpo morto.

Citei inicialmente a famosa peça, mas quero me ater a última questão levantada no parágrafo anterior e lembrar do um ato que ocorreu no dia 18 de setembro no Tucarena, a partir do relatório da Comissão da Verdade da PUC-SP e que pode ser acessado pelo link: Comissão da Verdade .

O Comissão realizou um minucioso trabalho de recuperação histórica e da participação da Universidade acerca dos fatos ocorridos que culminaram na invasão da Instituição pelas tropas do coronel Erasmo Dias. Trazer à memória aqueles tempos sombrios fez com que o auditório lotado pela comunidade acadêmica e externa pudessem perceber a grandeza em se lutar por um país que deve valorizar o regime democrático que se instalou a partir de 1988.

As falas emocionadas durante o evento davam conta de rememorar também a trajetória de 5 estudantes da Universidade que durante o evento foram justamente diplomados. Digo justamente, porque foram impedidos à época pelas leis impostas pela ditadura civil militar de 1964 de se expressarem livremente, de estudarem, de conviverem com seus familiares e assim por diante.

Me foi relatado pelo irmão de um dos homenageados que o momento mais duro foi o reconhecimento da morte pelo Estado quando houve a emissão do atestado de óbito. Um misto de tristeza, mas enfim o direito da família e amigos de encerrarem o luto de tantos e tantos anos.

Outra fala durante a cerimônia bastante emocionante relembrava, assim como Antígona, sobre a responsabilidade do Estado em não permitir que se enterrasse seus mortos, já que desapareceram e nunca mais foram localizados. Primeiro a angústia da família por um possível retorno, depois a desolação por não localizar, velar e enterrar seu ente querido.

A cada fala, em cada relato ouvido, meu coração apertava. Seguir sem ter honrado seus mortos é uma batalha de várias famílias que foram impedidas de cumprir os ritos mortuários. Saber que seus entes não tiveram a sua sepultura causa um desconforto social. Como disseram no evento:

“Lembrar é resistir “

As regras de direito atualmente estabelecem que em vida todos tem o direito ao sepultamento – o jus sepulchri e, após a morte, a permanecer sepultado. Como Antígona, vamos enterrar nossos mortos !

comissão da verdade cilon

Imagem: Bete Andrade, ACI PUC-SP.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑