IKU, A MORTE

 

Iku está passando. Tenha calma, não faça movimentos bruscos, siga devagar. Respeito. A morte não aceita acinte. Num susto pode te esbarrar. Cuidado. A morte não erra o dia nem o endereço, mas anda abrupta e num simples toque, por mais leve que seja, te arranca o sopro. Um dia ela cruzará o caminho de todos, mas não se ponha em sua frente. Respeite Iku, respeite a morte.

 

Por: Rodney Willian Eugênio

China confisca caixões

Pode parecer uma piada ou apenas uma medida sem qualquer importância, mas ao confiscar caixões o governo declara a impossibilidade de tratar de questões relativas a vida e a morte da sua população.

Essas questões estão relacionadas aos aspectos materiais que reverberam na impossibilidade de tratar da questão populacional e que reverbera no tratamento que se dá corpo morto e sua consequente inumação ou ao atendimento das disposições de vontade da pessoa falecida e seus familiares.

Diz respeito também as questões de ordem religiosa que  ficam suspensas a medida que, ao macular o corpo, a crença de que o espírito não receberá o descanso adequado permanecerá no cerne daqueles fazem parte do entorno da pessoa falecida.

A falta de espaço para enterros e a negação do corpo morto foram temas recorrentes no nascimento do Estado, especialmente, no período da Revolução Francesa, quando ao afastar os mortos da cidade se pretendia também negar a morte como uma questão social. Ao afastar o corpo dos familiares e amigos, se tornava uma questão sanitária e ao esconder o corpo se tornou uma questão política.

A matéria completa está no link China consfisca caixões

 

A falta de espaço nos cemitérios

 

 

Muitas pessoas não entendem a dimensão de uma medida como esse proposta pelo governo chinês.

 

 

 

 

https://jovempan.uol.com.br/noticias/mundo/china-confisca-caixoes-para-proibir-enterros.html?utm_campaign=uol&utm_source=twitter&utm_content=geral&utm_medium=social-media

Ironia da liberdade

Ironia da liberdade

Disseram a José, quando este nasceu, que a vida lhe cobraria alguns centavos a gosto. José, nascido no terceiro dia do segundo mês, pensou que a cobrança seria feita em trabalho. A gosto de quê? A troco do puro gosto? José, assim que nascido, só não fora trabalhar porque um tal de Girino lhe dissera: vem cá, tem de esperar! Mas José, estando nascido lá no sertão dos Corais, não sabia que o valor seria tão alto quanto lhe queriam creditar.

Nasceu, cresceu, e perguntara: o que faço ainda eu por tanto trabalhar? Já pagara os alguns centavos a gosto que me disseram: “haverá a vida de cobrar”? José, já falecido, coitado, fora marido, pai e avô. Mas sempre devedor desses centavos que o mundo não cessara: cobrara-lhe por pura dor.

Victhor Fabiano, da coletânea Guerra da Minha Ruavicthor

Matheusa

 

Matheusa, como se identificava, está morta. Era não-binária, não escondeu nas redes sociais, como se verifica na matéria publicada pelo G1 a sua condição de vulnerabilidade financeira e por isso pediu ajuda.

Matheusa, como se identificava, está morta. Saiu de uma festa e seguiu até o Morro do 18 para ser morta. Foi julgada pelos traficantes do local, conforme nos diz a delegada.

Matheusa, como se identificava, está morta. Mas também já havia sido julgada por todos nós que permitimos que chegasse aos 35 anos, tempo médio de vida de pessoas transgêneros no Brasil.

O corpo é mídia primária, é ele quem nos codifica e informa à sociedade quem somos. Mais do indivíduos, sujeitos, coletivos, somos conceitos. A informação de que Matheusa foi morta e, possivelmente, queimada é a mostra de que conceitos no Brasil ainda não permitem que corpos trans vivam em sua dignidade. Pior, esse corpo além de não poder viver, também não pode existir – dá-se um nome, tira-se uma vida, queima-se o corpo.

Inexiste, porque o corpo tornou-se o nada.

 

(Imagem: Carta Capital)

 

 

 

 

 

44

Por volta de 1h30′ da madrugada ouviu-se um grande barulho. Era no chamado Edifício Wilton Paes de Almeida o estrondo que supostamente vinha do 5º andar, no centro de São Paulo e tirava seus moradores das suas camas. A tragédia ocorrida no dia 1º de maio tomou conta do noticiário e das redes sociais.

Daqueles que ficaram expostos durante todo o dia no Largo do Paissandu pela oportunidade de terem conseguido sair ilesos das ruínas (se é que alguém saiu ileso), até aqueles que nas seguranças dos seus lares se marcavam como seguros o que se confirma é um total despreparo das autoridades públicas para a solução da moradia no país.

Foram relatos e entrevistas durante todo o dia de urbanistas, juristas, políticos e alguns moradores. A repórter até pediu foco na criança que bebia água, como se esse fosse um fato novo – os ocupantes bebem água, atentem !!!!

Mas e os mortos ?

Outras notícias dão conta de que há até o momento 44 desaparecidos com base na lista apresentada pela assistência social da Prefeitura de São Paulo, podemos ver a notícia em Bombeiros buscam desaparecidos . Não se sabe ao certo se estavam no local do evento ou se estavam fora de suas casas, afinal era feriado.

Me estranha, no entanto, o fato de que nenhuma lista tenha sido divulgada com maior amplitude e com nomes dos moradores. Se há um registro, há nomes.  Não há destaque para essa informação. Sabemos sobre as condições do prédio, sobre a força tarefa, sobre a desigualdade que assola o país, sobre as condições indignas de segurança no local, mas não sabemos dos desaparecidos ou mortos são travestis que moravam no local, se são  refugiados ou migrantes. Não há  nomes, não há rostos !

Na morte há desigualdade quando não se permite que nossos mortes tenham nomes e tenham rostos. Não sem razão, Butler, em Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto?,  nos explica da impossibilidade do luto para o corpo morto, quando não há vida vivida naquele que se foi “Sem a condição de ser enlutada, não há vida, ou, melhor dizendo, há algo que está vivo, mas que é diferente de uma vida”.

A invisibilidade perpetuada nas normas existentes que já não permitiram que essas vidas fossem reconhecidas, em suas condições mínimas, afinal, se as pessoas não morreram na tragédia, a tragédia das condições já as matou. Por que então teríamos um nomes nessa lista ?

 

O que é um velório ?

No filme Dreamgirls a filha se dirigindo-se a mãe, pergunta:  O que é um velório ?

A partir desse momento parei de prestar atenção no filme para pensar exatamente o que significa um velório e se nos dias atuais ainda faria algum sentido.

Em geral, os velórios são aquelas cerimônias onde um grupo ou grupos de pessoas se reunem para prestar as devidas homenagens a quem morreu. Mais do que isso, é um momento de solidariedade entre familiares e amigos.

É a partir do velório também que algo interno e muito pessoal se transforma entre receber, absorver e assimilar a notícia há um longo percurso que muitas vezes tem seu ápice no encontro com o corpo morto. Quantas vezes custamos a acreditar que alguém morreu ? As vezes somos pegos tão de surpresa que outra realidade se impõe e nos custa acreditar que alguém tenha partido. 

Não me acostumo com a ideia de velórios rápidos que se dão pela urgência em acabar com o cerimonial, como se com ele a dor também fosse passar. Sempre entendi que a morte suspendia todos os outros atos da vida para que pudéssemos viver o luto de maneira adequada. 

Também me estranha quando velórios são fechados  sem que a família e amigos tenham a possibilidade de guardar o seu morto durante a noite pois não há segurança nos cemitérios. Pode parecer pouco, mas há muitos relatos de pessoas que tinham que fechar a sala e voltar no dia seguinte pois o poder público não poderia garantir a segurança de quem estava ali.  

Há famílias em que pessoas foram retiradas e desapareceram e não tiveram a oportunidade de honrar a vida daquele ente. Restou somente uma certidão de óbito dada pelo Estado, sem um corpo. 

O velório é a possibilidade do grupo se preparar para guardar o luto e por quanto tempo, a medida que precisa assimilar o que significa aquela ausência que passará a ser sentida. 

velorio

Imagem: Acervo pessoal

Por que há pressa ? Por que não velar ? Por que imaginar que aquele que deu alegria precisaria desaparecer tão rapidamente ?

Fico pensando em tudo isso e continuo concordando com a resposta dada pela mãe à filha no filme:

Velório, é quando os amigos compartilham o amor por alguém que se foi…

 

Onde estão nossos mortos ?

Imagem: Instituto Forense da Unesp, arquivo pessoal.

Onde estão nossos mortos ? (Por Fábio Mariano)

Muitos dos leitores conhecem a tragédia Antígona que compõe a terceira parte da trilogia de Tebas de Sófocles e que marca o confronto entre Antígona e Creonte. Antígona, a irmã, invoca o direito de enterrar Polinice – o irmão, morto em batalha, enquanto Creonte, o Rei, contrariando a um direito natural edita uma lei que proíbe a inumação, por considerar que o morto havia desonrado a cidade de Tebas.

Da leitura de toda tragédia que renderia muitas e muitas interpretações, resta claro que não se trata somente de uma disputa familiar, nem da discussão a respeito da interposição de um direito positivo sobre um direito natural, é tudo isso aliada a uma questão que sempre me parece fundamental de discutir – a dignidade do corpo morto.

Citei inicialmente a famosa peça, mas quero me ater a última questão levantada no parágrafo anterior e lembrar do um ato que ocorreu no dia 18 de setembro no Tucarena, a partir do relatório da Comissão da Verdade da PUC-SP e que pode ser acessado pelo link: Comissão da Verdade .

O Comissão realizou um minucioso trabalho de recuperação histórica e da participação da Universidade acerca dos fatos ocorridos que culminaram na invasão da Instituição pelas tropas do coronel Erasmo Dias. Trazer à memória aqueles tempos sombrios fez com que o auditório lotado pela comunidade acadêmica e externa pudessem perceber a grandeza em se lutar por um país que deve valorizar o regime democrático que se instalou a partir de 1988.

As falas emocionadas durante o evento davam conta de rememorar também a trajetória de 5 estudantes da Universidade que durante o evento foram justamente diplomados. Digo justamente, porque foram impedidos à época pelas leis impostas pela ditadura civil militar de 1964 de se expressarem livremente, de estudarem, de conviverem com seus familiares e assim por diante.

Me foi relatado pelo irmão de um dos homenageados que o momento mais duro foi o reconhecimento da morte pelo Estado quando houve a emissão do atestado de óbito. Um misto de tristeza, mas enfim o direito da família e amigos de encerrarem o luto de tantos e tantos anos.

Outra fala durante a cerimônia bastante emocionante relembrava, assim como Antígona, sobre a responsabilidade do Estado em não permitir que se enterrasse seus mortos, já que desapareceram e nunca mais foram localizados. Primeiro a angústia da família por um possível retorno, depois a desolação por não localizar, velar e enterrar seu ente querido.

A cada fala, em cada relato ouvido, meu coração apertava. Seguir sem ter honrado seus mortos é uma batalha de várias famílias que foram impedidas de cumprir os ritos mortuários. Saber que seus entes não tiveram a sua sepultura causa um desconforto social. Como disseram no evento:

“Lembrar é resistir “

As regras de direito atualmente estabelecem que em vida todos tem o direito ao sepultamento – o jus sepulchri e, após a morte, a permanecer sepultado. Como Antígona, vamos enterrar nossos mortos !

comissão da verdade cilon

Imagem: Bete Andrade, ACI PUC-SP.

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