LAMENTO

Ouçam, crianças:
Seu pai morreu.
De seus velhos paletós
Vou lhes fazer casaquinhos;
E vou lhes fazer calcinhas
Com as suas calças velhas.
Haverá nos seus bolsos
Coisas que punha ali;
Algumas chaves e moedas
Recobertas de tabaco;
As moedas são de Dan,
Para guardar no cofrinho;
Com Anne ficam as chaves,
Para um belo tilintar.
A vida tem que seguir,
E os mortos ser esquecidos;
A vida tem que seguir,
Ainda que morram bons homens;
Anne, venha tomar seu café;
Dan, tome o remédio você;
A vida tem que seguir;
Eu só não lembro porquê.

 

Edna St. Vincent Millay, (1892 -1950)
tradução: Paulo Vizioli

Agradecimento especial ao amigo Luiz Claudio, Finest pela beleza de poema compartilhado.

Qual é o lugar da morte ?

A pergunta título desta publicação causa certamente uma reflexão a respeito do nossos desafios em relação a morte e o seu lugar nas sociedades modernas.

As dinâmicas sociais falam a respeito desse tema a partir do lugar em que se encontra a morte, o morto, o luto, os rituais de passagem e assim por diante em cada uma das culturas. Como sabemos, todos os rituais tem por objetivo acalmar os sentimentos de todos aqueles que estão no entorno e do próprio morto.

No fim da Idade Média, ao saber que a morte se aproximava o moribundo se utilizava do testamento para expor ali todos os seus desejos. Era a distribuição dos bens, mas era também o pedido de perdão a um ente querido, o desejo de que seu nome permanecesse circunscrito aos círculos sociais por meio de missas, em placas de madeira ou metal afixadas nas igrejas e o outros rituais.

De toda sorte, de lá pra cá muita coisa mudou e o avanço do capitalismo fez com que passássemos a estipular uma outra ordem em relação as prioridades do dia a dia, a morte deixou de ser uma delas ou pelo menos despencou no ranking.

Já observaram a pressa com que enterramos nossos mortos ? Temos um trabalho a fazer, a família pra cuidar, um jantar para oferecer, um produto para consumir e a tristeza não pode se sobrepor aos nossos anseios. Mais do que isso, não é possível dispor de um longo período para celebrar o morto e viver o luto.

Fonte da imagem: sítio eletrônico https://i.pinimimg.com

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