Matheusa

 

Matheusa, como se identificava, está morta. Era não-binária, não escondeu nas redes sociais, como se verifica na matéria publicada pelo G1 a sua condição de vulnerabilidade financeira e por isso pediu ajuda.

Matheusa, como se identificava, está morta. Saiu de uma festa e seguiu até o Morro do 18 para ser morta. Foi julgada pelos traficantes do local, conforme nos diz a delegada.

Matheusa, como se identificava, está morta. Mas também já havia sido julgada por todos nós que permitimos que chegasse aos 35 anos, tempo médio de vida de pessoas transgêneros no Brasil.

O corpo é mídia primária, é ele quem nos codifica e informa à sociedade quem somos. Mais do indivíduos, sujeitos, coletivos, somos conceitos. A informação de que Matheusa foi morta e, possivelmente, queimada é a mostra de que conceitos no Brasil ainda não permitem que corpos trans vivam em sua dignidade. Pior, esse corpo além de não poder viver, também não pode existir – dá-se um nome, tira-se uma vida, queima-se o corpo.

Inexiste, porque o corpo tornou-se o nada.

 

(Imagem: Carta Capital)

 

 

 

 

 

Um convite !

A morte não é uma questão pessoal ou apenas familiar, é antes de tudo uma questão social.

Quando digo isto me refiro ao fato de que há uma intervenção direta por parte do Estado na forma como entende e contribui na forma de morrer de alguns sujeitos. Isso se reflete por meio de mecanismos que favorecem desejos individuais de determinados grupos. A disponibilização de testamento vital, a escolha de rituais fúnebres para cristãos, a disponibilização de sepultura, por exemplo, são algumas das formas.

A participação do Estado se dá também quando ele se omite diante da forma como determinados sujeitos morrem. A participação por omissão.

Vejam, que dignidade há em morrer de maneira brutal ? Nenhuma , você que está lendo deve concordar com isso. Então porque travestis e transexuais continuam sendo sistematicamente alvo de mortes brutais, sem que o Estado consiga mudar os parâmetros atuais ?

Em 2016 de toda comunidade LGBT que foi morta, 40% eram de pessoas travestis e transexuais. Vejamos 2016 em números:

– 343 lgbt assassinados (173 gays, 144 trans, 10 lésbicas, 4 bissexuais)
– uma morte a cada 25 horas
– 31% com armas de fogo
– 27% com armas brancas
– no Brasil se mata mais do nos 13 países do Oriente e e Africa que possuem pena de morte
Dados do Grupo Gay da Bahia.

Em 2017, esse número saltou de 40% para a marca de 45%, num total de 179 mortes. As mortes são sempre cometidas com requintes de crueldade – faca, tiro, espancamento, mutilação. Esses números podem ser analisados meio do Dados sobre mortes de travestis e transexuais no Brasil 2017 .

Quando não há politicas públicas específicas por parte dos agentes estatais, quando há omissão em relação aos números, quando não há um quadro que busque mudar a expectativa de vida que ainda gira em torno dos 35 anos de idade, o que temos é uma política de extermínio. A essas pessoas não foram dadas oportunidades em relação a sua vida, sequer em relação a sua morte. É quase que um prenuncio a forma como acontecerá.

Por que determinados sujeitos podem viver e morrer dignamente e outros não ? Eis uma boa reflexão para 2018. Fica o convite !

 

 

 

 

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